Jaime Freitas é um daqueles nomes que Angola conhece bem. Nasceu em 1950 no Lubango, terra do sul que guarda orgulho e carácter, filho de pai português que fincou raízes no país nos anos 40, e neto de quem já havia pisado solo angolano durante a Primeira Guerra Mundial.
Com toda essa ligação à terra, não admira que tenha optado, e com convicção, pela nacionalidade angolana. É angolano. Ponto final.
Cresceu entre o Lubango e Saurimo, fez os seus estudos no Instituto Comercial da cidade que o viu nascer e começou a trabalhar como professor — como tantos jovens angolanos da sua geração que encontraram na educação o primeiro caminho. Depois veio o serviço militar, e a seguir a Sacor Portuguesa, empresa de combustíveis que operava em Angola.
Quando o Estado nacionalizou a empresa, Jaime Freitas não ficou para trás: tornou-se um dos primeiros quadros da Sonangol, em 1977, onde chegou a director-geral-adjunto e director de negociações. Foram 16 anos no sector petrolífero, escola dura e exigente, que formou muita da sua visão sobre os negócios e sobre o país.
Nos anos 90, com Angola a abrir-se ao sector privado, Jaime Freitas soube ler o momento.
Passou pela empresa italiana IT Transportes, um dos maiores operadores portuários da época, e ao mesmo tempo foi juntando capital para investir por conta própria.
Em 1992 entrou como sócio na COSAL — Comércio e Serviços de Angola —, empresa que os irmãos Elizabeth e Luís Isidoro estavam a reformular. Em 1996 assumiu a gestão e não parou mais. Trouxe marcas, abriu mercados, construiu um grupo. A COSAL tornou-se representante e distribuidora da Mercedes, da Hyundai, da Mitsubishi, da Suzuki, da Yamaha e dos óleos Castrol, entre outras. O sector automóvel representa hoje cerca de 45% do grupo, mas Jaime Freitas foi mais longe.
Investiu na hotelaria com a mesma garra. O Hotel Terminus no Lobito, o Hotel Samba em Luanda, o complexo turístico Pululukwa no Lubango, o Roça das Mangueiras na ilha de Mussulo, o Safari Resort no norte da Namíbia — são activos que falam por si.
Na restauração, abriu espaços como o Embarcad’Ouro, o Mulemba e o Mokoro, em Luanda e Mussulo. E quando os amigos o desafiaram a apostar na agropecuária, não recusou. Tem hoje uma fazenda de 15 mil hectares no Cunene, junto à fronteira com a Namíbia, com cerca de mil cabeças de gado e já a experimentar inseminação artificial com apoio de especialistas brasileiros.
Quem conhece Jaime Freitas sabe que ele não faz as coisas pela metade.
Na banca, a história é igualmente sólida. Entrou no capital do Banco Totta a convite do gestor António Horta Osório — convite que chegou também ao empresário António Mosquito.
A instituição foi mudando de nome, de Totta para Santander, e de Santander para Banco Caixa Geral Angola. Jaime Freitas ficou. É hoje accionista individual de referência, com 19,5% de participação directa, a par de António Mosquito.
A Caixa Geral de Depósitos de Portugal controla a instituição com 51% do capital. Em setembro de 2022, o banco tornou-se o primeiro de capital maioritariamente estrangeiro — e a segunda empresa angolana — a ter acções admitidas à negociação na BODIVA, a bolsa de valores do país.
Um marco que não passou despercebido. Sobre o futuro da banca angolana, Jaime Freitas fala com a franqueza de quem está dentro do sistema.
Diz que o grande desafio é a conformidade — o combate ao branqueamento de capitais —, e que os bancos que não tiverem capacidade para responder às exigências regulatórias terão de ser vendidos.
Com 24 bancos a operar no país, defende que chegou a hora de consolidar. “Precisamos ter um banco grande, sólido, um banco norte-americano, por exemplo, que pudesse ajudar a fazer um trampolim e a trazer o dólar para o país”, diz, sem rodeios.
Afastado da liderança do Grupo COSAL, Jaime Freitas não abrandou.
Tem investimentos previstos de cerca de 25 milhões de dólares no turismo entre 2023 e 2025, incluindo a recuperação de hotéis e a parceria com a Teixeira Duarte para o complexo do CCTA e o Hotel de Convenções de Talatona, em Luanda.
Acredita que o turismo angolano vai crescer a partir do sul, e que zonas ainda inexploradas como o Cuando Cubango são “pérolas” que o mundo ainda não descobriu. Quer que o legado que deixa seja o de um turismo de natureza, respeitoso e sustentável.


