Há homens que passam pela vida pública como quem atravessa uma sala — discretamente, sem fazer barulho, mas deixando sempre alguma coisa para trás.
Júlio Marcelino Vieira Bessa é um desses homens.
Economista de formação, político de vocação e accionista por convicção, Bessa construiu ao longo de mais de quatro décadas um percurso que poucos em Angola conseguiram igualar em longevidade e em diversidade de palcos.
Passou pelos corredores do Ministério das Finanças, pelos plenários da Assembleia Nacional, pelos gabinetes do governo provincial de Luanda e pelos confins do então Cuando Cubango — hoje dividido em duas províncias, o Cuando e o Cubango, antes de regressar a Luanda com a autoridade de quem já viu tudo e já esteve em todo o lado.
Foi Ministro das Finanças numa época em que gerir o erário público era tanto uma arte como uma necessidade de sobrevivência.
Depois, como quem descansa entre batalhas, tornou-se deputado, vice-governador de Luanda para o Sector Económico e, mais tarde, governador daquela que foi a maior província do país. Em 2021, foi exonerado pelo Presidente da República.
Enquanto servia o Estado, ou se calhar muito antes, Júlio Bessa foi também construindo a sua posição no sector privado.
Hoje detém 7,00% do capital do Banco Comercial Angolano e 4,17% do Banco Sol — dois dos bancos mais conhecidos do sistema financeiro nacional.
O Banco Sol, diga-se, não tem vivido tempos fáceis. Após prejuízos acumulados entre 2024 e 2025 que chegaram aos 7,1 mil milhões de kwanzas, a instituição entrou num processo de reestruturação supervisionado pelo Banco Nacional de Angola. Mas os sinais de recuperação começaram a aparecer — um lucro de 0,6 mil milhões de kwanzas no segundo trimestre de 2025, depósitos a crescer 12,1% e activos totais a chegar ao bilião de kwanzas.
No primeiro semestre desse ano, o banco ocupou a segunda posição no Ranking das Provedorias do BNA para instituições com mais de um milhão de clientes. Angola perdoa quem cai, desde que saiba levantar-se.
Em Março de 2025, Júlio Bessa voltou a surpreender. Trocou o MPLA — partido a que esteve ligado durante décadas — pela presidência do Cidadania, uma jovem formação política legalizada em 2024.
No discurso de tomada de posse, disse aquilo que muitos pensam mas poucos têm coragem de dizer em voz alta: que o governo não tem resolvido os problemas dos cidadãos e que as despesas públicas servem, antes de mais, para enriquecer alguns. Palavras duras, vindas de alguém que esteve dentro do sistema tempo suficiente para o conhecer bem.
É essa a marca de Júlio Bessa — um homem que serviu o Estado, investiu na banca e, no fim, escolheu a oposição. Se é coerência ou contradição, Angola que decida.


