Africa France Impact Coalition passa a estrutura permanente. Carteira soma 30 projectos e 23 mil milhões €. Nelson Carrinho é o único angolano entre os membros.
O Presidente francês, Emmanuel Macron, recebeu no domingo, 4 de Outubro, no Palácio do Eliseu, empresários africanos e franceses num jantar da Africa France Impact Coalition (AFIC). O encontro transformou em estrutura permanente a plataforma lançada em Maio, na cimeira Africa Forward, em Nairobi.
A carteira da coligação reúne 30 projectos, avaliados em 23 mil milhões €. Deste montante, 14 mil milhões € são de origem francesa, pública e privada, e 9 mil milhões € de investidores africanos. Por sectores, a transição energética absorve 4,3 mil milhões €, o digital e a inteligência artificial 3,76 mil milhões €, a economia azul 3,3 mil milhões € e a agricultura mil milhões €. Paris estima a criação de 250 mil empregos directos.
A AFIC é coordenada pela French-African Foundation e reúne mais de 40 dirigentes empresariais. As empresas representadas facturam mais de 100 mil milhões € por ano em África, empregam mais de um milhão de pessoas no continente e investem ali 40 mil milhões € anuais, segundo dados da coligação.
A composição da lista confirma a mudança de eixo da política africana de Paris. A Nigéria tem oito representantes, o Quénia quatro e a África do Sul três. Angola tem um.
Carrinho, o único angolano
Nelson Carrinho é presidente executivo do Grupo Carrinho desde 2004. O grupo, fundado em 1993 em Benguela, emprega mais de cinco mil trabalhadores. O complexo industrial de Benguela tem 17 unidades fabris de farinha, fuba, arroz, massa e óleo alimentar. No retalho, a cadeia Bem Barato Eskebra tem como meta 250 lojas em todo o País.
O grupo entrou na banca em 2021, com a compra do Banco de Comércio e Indústria (BCI). Em Setembro, acordou com o BPI a aquisição de 33,35% do Banco de Fomento Angola (BFA), por 452 milhões USD. A operação é feita através da Congolian Financial, com sede no Lobito, detida por Nelson Carrinho e pelo irmão, Rui Carrinho.
A presença do empresário de Benguela dá a Paris um interlocutor num mercado onde a França tem peso limitado fora do petróleo, e na zona de influência do Corredor do Lobito.
Elumelu lidera
A coligação é presidida pelo nigeriano Tony Elumelu, 63 anos, nomeado por Macron em Março. Elumelu controla o United Bank for Africa (UBA), presente em cerca de 20 países, a Transcorp e a Heirs Holdings. O UBA aguarda licença bancária plena em França para operar a partir de Paris no mercado europeu.
Quem é quem
Nigéria
- Aliko Dangote, Grupo Dangote. Cimento, açúcar, fertilizantes e refinação. A refinaria de Lekki exporta combustível de aviação para França.
- Mike Adenuga, Globacom e Conoil. Telecomunicações e petróleo.
- Abdul Samad Rabiu, BUA Group. Cimento e açúcar.
- Aigboje Aig-Imoukhuede, Coronation Group e Access. Co-fundador do Access Bank na sua forma actual.
- Jim Ovia, presidente do Zenith Bank, que fundou em 1990.
- Adaora Umeoji, presidente executiva do Zenith Bank desde 2024.
- Kola Karim, Shoreline Energy. Petróleo e gás.
Quénia
- James Mwangi, Equity Group. Banco presente em seis países da região.
- Peter Ndegwa, Safaricom. Operadora de telecomunicações e dona do M-Pesa.
- Jeremy Awori, Ecobank. Grupo bancário presente em três dezenas de países.
- James Mworia, Centum Investment. Sociedade de investimento cotada em Nairobi.
África do Sul
- Phuthi Mahanyele-Dabengwa, Naspers África do Sul.
- Stavros Nicolaou, Aspen Pharma, a maior farmacêutica africana.
- Robert Gumede, GUMA Group. Tecnologias de informação e investimentos.
Marrocos e Tunísia
- Mostafa Terrab, presidente do OCP, líder mundial dos fosfatos.
- Moulay Hafid Elalamy, Grupo Saham. Antigo ministro da Indústria de Marrocos (2013-2021).
- Karim Beguir, InstaDeep. Empresa de inteligência artificial vendida à BioNTech em 2023.
África francófona
- Ahmed Cissé, Brandon & McCain. Preside ao patronato da Costa do Marfim e à Aliança dos Patronatos Francófonos.
- Baïdy Agne, Business Africa. Preside à confederação de 41 organizações patronais africanas e ao patronato senegalês.
- Mustapha Rawji, Rawbank, primeiro banco privado da RD Congo.
Outros
- Mo Ibrahim, Fundação Mo Ibrahim. Fundador da Celtel, vendida em 2005 por 3,4 mil milhões USD.
- Naguib Sawiris (Egipto), Global Telecom Holding.
- Mohammed Dewji (Tanzânia), MeTL, o maior grupo privado do país.
- Hassanein Hiridjee (Madagáscar), Axian. Telecomunicações e energia.
- Arnaud Lagesse (Maurícia), IBL, o maior conglomerado do país.
Castel na lista
Entre os franceses, o nome com mais ligação ao mercado angolano é Grégory Clerc, director-geral do Grupo Castel, accionista das cervejeiras Cuca, EKA e Nocal. Clerc assumiu a gestão em Outubro de 2023. A Castel Afrique opera em 22 países, emprega cerca de 40 mil pessoas e factura mais de 5 mil milhões €. O gestor está envolvido numa disputa pelo controlo do grupo com a herdeira, Romy Castel, e com o sobrinho do fundador, Alain Castel, com processos em Singapura e no Luxemburgo.
Os restantes membros franceses incluem os líderes da TotalEnergies (Patrick Pouyanné), um dos maiores operadores petrolíferos no País, da CMA CGM (Rodolphe Saadé), EDF (Bernard Fontana), Schneider Electric (Jean-Pascal Tricoire), Orange (Christel Heydemann), Eramet (Christel Bories), Accor (Sébastien Bazin), Danone (Antoine de Saint-Affrique), Sanofi (Frédéric Oudéa), Canal+ (Maxime Saada), Iliad (Xavier Niel) e Mistral AI (Arthur Mensch).
Menos francofonia, mais capital privado
A iniciativa responde à perda de influência francesa na África Ocidental. Depois da ruptura com o Mali, o Burkina Faso e o Níger, na sequência dos golpes de Estado de 2020 a 2023, Paris passou a privilegiar a África anglófona. A cimeira de Maio realizou-se em Nairobi, a primeira num país anglófono, e a coligação é liderada por um banqueiro nigeriano.
O instrumento escolhido é o investimento privado, em substituição da ajuda pública ao desenvolvimento. O teste será a execução: dos 23 mil milhões € anunciados, ainda não há informação pública sobre o montante efectivamente desembolsado.



