As Maurícias afirmam-se como o segundo principal destino identificado do investimento angolano no exterior, atrás apenas de Portugal. De acordo com dados do Banco Nacional de Angola (BNA), o stock de investimento de residentes angolanos naquele país do Índico atingiu 720 milhões de dólares no final do primeiro trimestre de 2026.
O valor representa uma subida de 16% face aos 619 milhões registados em 2023. Ao contrário de outros destinos, a trajectória tem sido de crescimento contínuo: 660 milhões em 2024 e um pico de 730 milhões em 2025. Neste período, o peso das Maurícias no total do investimento angolano lá fora passou de cerca de 11,7% para 13,2%.
A resiliência destaca-se sobretudo no início de 2026. Segundo os números do BNA citados pelo jornal económico Expansão, entre Janeiro e Março o stock nas Maurícias recuou apenas 1,4%. Em Portugal, o principal destino, a queda foi de quase 9%, de 3.096 para 2.820 milhões de dólares.
Portugal continua, ainda assim, a concentrar cerca de metade de todo o investimento angolano no exterior, com um stock quase quatro vezes superior ao das Maurícias. Mas a distância tem vindo a encurtar.
As Maurícias, conhecidas como plataforma financeira para investimentos em África, superam com folga outros centros financeiros usados por investidores angolanos. A Ilha de Man, por exemplo, mantém-se estável em torno dos 295 milhões de dólares, menos de metade do valor investido no arquipélago africano.
Os países lusófonos têm um peso residual. São Tomé e Príncipe caiu de 48 para 33 milhões de dólares e Cabo Verde mantém-se nos 22 milhões.
No total, o stock de investimento angolano no exterior fixou-se em cerca de 5.450 milhões de dólares no primeiro trimestre de 2026, praticamente o mesmo nível do final de 2025.
Entre os investidores angolanos no arquipélago está o Fundo Soberano de Angola (FSDEA). Segundo o Relatório e Contas de 2025, os investimentos do Fundo em subsidiárias, todas integradas na FSDEA International Holding PCC, sediada nas Maurícias, atingiram 1.019 milhões de dólares no final do ano, mais 45% do que os 703,7 milhões de 2024. A rentabilidade destes investimentos alternativos subiu de 6% para 42%.
O valor supera em cerca de 290 milhões de dólares o stock total de investimento angolano nas Maurícias registado pelo BNA para o mesmo período. A diferença não é nova: em 2023 e 2024, os investimentos do Fundo em subsidiárias (659,9 e 703,7 milhões) já estavam acima dos valores do banco central (619 e 660 milhões), mas o desfasamento alargou-se em 2025. A discrepância poderá resultar de diferenças nos critérios de avaliação dos activos.
A holding está organizada como uma “Protected Cell Company”, em que os activos e passivos de cada “célula” ficam legalmente separados. O Fundo tem cinco: hotelaria; mezanino e farmacêutica; agricultura e silvicultura; infra-estruturas e mineração; e compras.
Na hotelaria, a carteira inclui o InterContinental de Lusaka, na Zâmbia, adquirido em 2016 por um fundo então gerido pela Quantum Global, e o Mövenpick Ambassador, em Acra, no Gana. Em 2025 surgiu ainda uma nova holding hoteleira em Luanda.
Na mineração, o Fundo detém 29,1% da britânica Pensana Rare Earths, 22% da Phobos e participações na FG Gold, na Serra Leoa, e na australiana Resolute Mining. Na área financeira, a LinkAfrica, na África do Sul, passou a ser detida em 69%.
Parte do dinheiro que passa pelas Maurícias regressa a Angola, através de participações em empresas como a Esplendor Florestal (99,8%), a Makunde (100%), o Laboratório Farmacêutico Ovihemba (48,4%) e os investimentos em saúde da ASF Luanda Healthcare.
O Fundo justifica a escolha das Maurícias com a vasta rede de acordos de protecção de investimentos e de dupla tributação, o reconhecimento do país como plataforma financeira para a África Subsariana e a possibilidade de segregar riscos através de veículos dedicados.



