A Marubeni sai do País sem explicar porquê. Deixa como herança um projecto têxtil de mais de mil milhões USD, financiado com dívida japonesa, que nunca chegou a produzir o que prometia.
A Marubeni Corporation encerrou o escritório de representação em Luanda. Num aviso datado de 5 de Outubro, a que a Líder Magazine teve acesso, o Banco Nacional de Angola (BNA) formaliza a saída e dá 30 dias a entidades públicas e privadas para comunicarem obrigações pendentes com o escritório, instalado no Shopping Avenida Business Center, em Talatona.
A decisão não é nova. A trading japonesa anunciou o encerramento a 23 de Janeiro, com efeitos a 1 de Abril, num comunicado de uma linha e sem justificação. O aviso do BNA é o passo administrativo que faltava.
Os números do grupo afastam a hipótese de dificuldades financeiras. A Marubeni fechou o exercício terminado em Março com lucros de cerca de 3,4 mil milhões USD, mais 8% do que no ano anterior, e receitas acima de 52 mil milhões USD.
A explicação está mais provavelmente na estratégia. O plano GC2027, em vigor até 2028, prevê desinvestimentos de cerca de 3,8 mil milhões USD e manda acelerar a saída de “negócios estagnados”. No documento, África aparece associada à saúde, à manutenção automóvel e ao café. Angola não é mencionada.
A presença da Marubeni no País ficou marcada sobretudo pela reabilitação das fábricas têxteis Textang II, em Luanda, Satec, no Dondo, e Alassola, em Benguela. O projecto arrancou em 2007 e foi financiado por linhas de crédito do Japan Bank for International Cooperation (JBIC) de mais de mil milhões USD, contraídas pelo Estado angolano. Só a Alassola absorveu 480 milhões USD, a Satec 410 milhões e a Textang II 235 milhões.
O retorno ficou muito abaixo do investimento. As fábricas foram entregues a privados num processo que o próprio Executivo classificou de irregular, com custos que chegaram a ser dez vezes superiores ao previsto. Acabaram arrestadas pelo Estado, a operar entre zero e 10% da capacidade. A dívida ao JBIC, essa, continua a ser do Estado.
Outro anúncio de peso também não saiu do papel. Em 2012, a Marubeni assinou um protocolo para investir 652 milhões USD num complexo de açúcar e etanol no Humbe, Cunene, com 66 mil hectares de cana e 15 mil postos de trabalho previstos. Não há registo público de avanços.
O último sinal de interesse foi um memorando de entendimento em 2023, para estudar a reflorestação de 31 mil hectares no Sul. Não se conhecem desenvolvimentos.
Sem escritório em Luanda, Angola passa a ser, na prática, um mercado acompanhado à distância por um dos maiores grupos comerciais do Japão.



