A petrolífera estatal do Qatar associou-se à Shell e à Sonangol nos blocos 8 e 22. Com as exportações de GNL afectadas pela crise no Golfo, o grupo procura em África novas fontes de crescimento, sem assumir a operação dos activos.
A QatarEnergy, segunda maior produtora mundial de gás natural liquefeito (GNL), passou a ter presença no offshore angolano. Em Setembro, o grupo estatal fechou uma parceria com a Shell, que fica com 50%, e com a Sonangol, que detém 20%, para os blocos 8 e 22. A empresa catariana fica com os restantes 30%.
A entrada em Angola vem depois de vários acordos assinados no continente: Argélia, Congo, Egipto, Namíbia e Líbia. Hoje, quase metade das expansões internacionais mais recentes da QatarEnergy está em África. Um dos exemplos é a Bacia de Orange, na Namíbia, onde o grupo e os seus parceiros já anunciaram oficialmente várias descobertas.
Saad bin Sherida al-Kaabi é ministro da Energia do Qatar e CEO da QatarEnergy. Segundo ele, o objectivo é alargar a carteira internacional do grupo com projectos de grande impacto e elevado potencial.
A empresa já estava em alguns mercados africanos, mas o interesse pelo continente tem aumentado.
O contexto ajuda a explicar a mudança. O Irão atacou infra-estruturas energéticas estratégicas e os estreitos de Ormuz e de Bab-el-Mandeb foram bloqueados. Com isso, a produção e as exportações de GNL do Qatar caíram fortemente. A QatarEnergy teve de prolongar até Novembro a declaração de força maior sobre as entregas de GNL à Europa e à Ásia.
Para Francesco Sassi, investigador em geopolítica de energia e mercados, “África representa uma das novas fronteiras para a expansão do sector de petróleo e gás”. O especialista sustenta que “os territórios africanos, relativamente protegidos das repercussões da guerra no Golfo Pérsico e na Ucrânia, são destinos ideais para a diversificação de investimentos”.
Ao contrário da Saudi Aramco e da ADNOC, dos Emirados Árabes Unidos, a QatarEnergy é a única empresa do Golfo que faz de África um dos motores do seu crescimento internacional. O modelo, porém, é prudente. O grupo não opera os activos sozinho e prefere comprar participações ao lado de grandes empresas ocidentais. Está com a TotalEnergies no Congo, na Namíbia e na Argélia, com a Shell em Angola e no Egipto, e com a Eni no Egipto, na Líbia e em Moçambique.
Philippe Sébille-Lopez, director-geral da consultora Géopolia, descreve esta presença como uma estratégia de observação num mercado já dominado por grandes operadoras. Ser sócio minoritário permite garantir retorno se houver sucesso e limita a exposição se os resultados ficarem aquém do esperado.
Dinheiro não falta. A QatarEnergy prevê um lucro líquido de 27 mil milhões USD em 2025, mais 4% do que em 2024. Mesmo assim, operar fora dos mercados que conhece envolveria riscos financeiros e operacionais que a administração parece querer evitar, pelo menos por agora.
Para o sector petrolífero angolano, a chegada da QatarEnergy traz mais um investidor de peso ao offshore, numa altura em que o País tenta atrair capital para travar o declínio da produção. Ter um dos maiores nomes mundiais do gás ao lado da Shell e da Sonangol pode também valorizar o potencial dos blocos 8 e 22 junto de outros investidores.
Contactada pela Jeune Afrique, publicação que avançou a análise, a QatarEnergy não comentou.



