As gigantes do petróleo e do gás estão a contar-se entre os principais beneficiários da guerra no Médio Oriente, segundo reportagem publicada pela revista Jeune Afrique.
O encerramento do Estreito de Ormuz — corredor estrategicamente vital para a exportação de hidrocarbonetos —, num contexto de tensões entre Israel, os Estados Unidos e o Irão, bem como os ataques a instalações energéticas na região, terá beneficiado as principais petrolíferas europeias, cujos indicadores financeiros melhoraram significativamente durante o primeiro semestre de 2026, avança a mesma publicação.
Segundo a Jeune Afrique, para as britânicas Shell e BP o início do ano revelou-se particularmente favorável.
O lucro líquido ajustado da Shell quase duplicou, atingindo 16,5 mil milhões de dólares norte-americanos. Já o lucro líquido da BP subiu para 8,9 mil milhões de dólares, um aumento de 144%, superando as previsões dos analistas.
Do lado francês, o lucro da TotalEnergies chegou aos 11,2 mil milhões de dólares (mais 72%), enquanto a concorrente italiana Eni quase alcançou os 5 mil milhões de dólares, um crescimento de 156% face ao ano anterior, de acordo com os números citados pela revista.
A publicação refere que estes resultados — comparáveis, em escala, aos registados entre 2022 e 2023, na sequência do choque energético provocado pela guerra na Ucrânia — se devem em larga medida à disparada dos preços do petróleo bruto.
Durante o primeiro semestre de 2026, o barril de petróleo Brent ultrapassou os 90 dólares, contra uma média de 71,9 dólares no ano anterior. Segundo a Jeune Afrique, as margens de refinação em alta e a forte rentabilidade das actividades de comercialização terão igualmente contribuído para estes resultados.
De acordo com a mesma fonte, a Eni — única multinacional petrolífera europeia que tinha abandonado o comércio de petróleo há sete anos — chegou entretanto a acordo com a Mercuria, empresa comercial suíça, para se reposicionar neste sector. Com esta parceria, o grupo liderado pelo físico milanês Claudio Descalzi passará a contar com uma holding independente para a comercialização de petróleo, biocombustíveis, gás e gás natural liquefeito.
A Jeune Afrique nota ainda que os resultados alcançados pelas grandes petrolíferas reflectem as suas estratégias de diversificação. Privada de parte da sua produção no Médio Oriente, a TotalEnergies apostou em determinados activos africanos, nomeadamente no projecto Mabrouk, na Líbia. Já a Eni, menos exposta às perturbações regionais, reforçou a sua posição em territórios tradicionais — Argélia e Congo — bem como em países hoje considerados estrategicamente importantes, como a Costa do Marfim e Moçambique.
Segundo a reportagem, esta vantagem traduziu-se ainda numa vaga de aquisições de licenças de exploração, após um longo período de declínio da exploração petrolífera no continente africano. De Marrocos à Namíbia, passando por Angola, Nigéria, Costa do Marfim, Gâmbia, Gana, Serra Leoa, Libéria e Guiné, inúmeras licenças foram recentemente concedidas tanto a gigantes do sector como a empresas independentes, de acordo com a Jeune Afrique.
Citado pela publicação, o especialista Philippe Sébille-Lopez afirma que há anos se tentava explorar algumas destas áreas, e que tudo indica que as empresas vão agora retomar e alargar essas operações, dada a real necessidade de novas reservas.
A Jeune Afrique conclui que, apesar das promessas de aposta nas energias renováveis, as grandes petrolíferas — em busca de diversificação de recursos e de petróleo a baixo custo — deverão reforçar ainda mais as suas actividades no sector dos hidrocarbonetos, seu negócio histórico principal, numa tendência particularmente visível nos territórios africanos, cada vez mais atractivos para o investimento do sector.



