Do Banco Nacional de Angola ao BNI, passando pelo BAI, pelo Finibanco e pelos céus da Bestfly — a trajectória de um homem que construiu a banca angolana com as próprias mãos.
Há homens que chegam à banca pela porta da formação — pela universidade, pelo estágio, pelo currículo bem ordenado. E há homens que chegam porque a história do país os chamou, porque o momento era aquele e nenhum outro, porque Angola precisava de quem soubesse contar o dinheiro antes de o gastar. Mário Abílio Moreira Palhares é do segundo tipo.
Chegou à banca quando Angola ainda estava a aprender a ser Angola — e ficou décadas, construindo, fundando, investindo, ligando continentes com a teimosia serena de quem sabe que o trabalho de hoje é a memória de amanhã.
A sua entrada no sistema financeiro deu-se pelo portal mais exigente possível: o Banco Nacional de Angola. Entre 1991 e 1997, Palhares foi Vice-Governador do BNA — o banco dos bancos, a instituição que regula, que supervisiona, que define as regras do jogo. Saiu com um mapa na cabeça que poucos tinham.
Com esse mapa na mão, ajudou a fundar o Banco Africano de Investimentos — o BAI, onde chegou a presidir ao Conselho de Administração. O BAI foi também a escola onde formou quadros que hoje marcam o panorama angolano. Um deles era um jovem promissor: Ricardo de Abreu, hoje Ministro dos Transportes. Palhares foi o seu mentor — e os dois acabariam por fundar juntos, em 2006, o Banco de Negócios Internacional, o BNI.
O BNI cresceu até Palhares deter mais de 54% do seu capital. Atravessou o Atlântico através do BNI Europa, em Lisboa. O Finibanco Angola, onde foi o maior accionista individual com mais de 35%, transformou-se no Access Bank Angola — um novo nome, mas com as marcas dos anos em que Palhares lá esteve.
A ligação a Cabo Verde é mais do que empresarial — é também afectiva. É casado com Teresa Teixeira, jurista cabo-verdiana. Têm dois filhos. A filha, Rose Palhares, é estilista de renome, levando Angola nos tecidos e na elegância de quem sabe o que quer dizer ao mundo.
Hoje, Palhares prepara-se para o capítulo mais silencioso e mais sábio de todos: a reforma. Não a reforma de quem se cansa, mas de quem termina o que começou. O BNA, o BAI, o BNI, o Access Bank, o pupilo que é ministro, a filha que veste Angola de beleza, a jurista cabo-verdiana ao seu lado. É uma vida construída em camadas, como se constroem os bancos que duram.
Em Angola diz-se que o rio não esquece a fonte. Mário Palhares foi, durante décadas, uma das fontes da banca angolana. O rio que dele nasceu ainda corre.


