O Tribunal Superior de Singapura decide hoje se o suíço Gregory Clerc mantém o comando da sociedade que controla o grupo Castel, dono da Cuca, da EKA, da Nocal e da N’gola, ou se o poder passa para a família do fundador. Em causa está um negócio com 40.000 trabalhadores e uma facturação de 6,5 mil milhões de euros.
O Tribunal Superior de Singapura pronuncia-se hoje sobre o controlo da Investment Beverage Business Management (IBBM), sociedade sediada na cidade-Estado e que detém a holding IBBF. Os juízes terão de escolher entre manter Gregory Clerc, presidente executivo do grupo desde 2023, ou dar razão a Romy Castel, filha única do fundador, e a Alain Castel, sobrinho deste e responsável pela influente filial de vinhos.
O caso corre em Singapura por ser aí que está registada a IBBM, no topo da cadeia de sociedades que controla o grupo. É a partir dela que são superintendidas todas as actividades da Castel, entre as quais o Grupo Castel Angola. O desfecho interessa, por isso, directamente ao mercado nacional de bebidas, onde o grupo francês detém a liderança.
A presença do grupo no País remonta ao início da década de 90. Nessa altura, a Castel chegou a acordo com o Governo angolano, que lhe concedeu uma participação na Cuca e a respectiva gestão em troca de investimentos em fábricas e equipamentos. As operações arrancaram em 1994, com a reabilitação da fábrica da Cuca, e estenderam-se depois à gestão da EKA, o que deu ao grupo o domínio das principais marcas de cerveja nacionais.
O portfólio inclui hoje cerca de 16 marcas, entre as quais Cuca, Nocal, EKA, N’gola, Doppel, Booster, XXL, Schweppes e Top. A rentabilidade do negócio angolano chegou a atrair concorrência, como a cervejeira ligada a Isabel dos Santos, que lançou a marca Luandina em 2016.
A crise na casa-mãe já se faz sentir na filial angolana. Em Janeiro, enquanto a disputa ganhava força, o grupo avançou com mudanças na liderança de várias subsidiárias importantes, entre elas a de Angola, com Diogo Victoria indicado para a direcção da Castel Angola.
O grupo foi fundado em Bordéus em 1949 por Pierre Castel, hoje com 99 anos, e emprega 40.000 pessoas, tendo facturado 6,5 mil milhões de euros em 2024.
O conflito entre a família e o gestor suíço surgiu no final de 2025 e ganhou contornos definitivos em Janeiro, durante a assembleia geral de uma das principais estruturas do grupo. Desde então, a luta pelo poder alastrou a vários países.
Na origem da crise está a sucessão. Uma fonte do sector vinícola de Bordéus, conhecedora do processo, explica que Pierre Castel, já muito idoso, confiou a gestão da empresa ao seu advogado fiscal, que acabou por chegar a presidente executivo. A escolha gerou atritos entre os accionistas.
O clima agravou-se com a ameaça de uma reavaliação fiscal em França, cujo montante pode ascender a vários milhões de euros ou, no limite superior da estimativa, a mil milhões, segundo a própria empresa.
Romy e Alain Castel invocam a condição de proprietários para denunciar uma “crise de governação” e acusam Gregory Clerc de se ter apoderado do grupo. O executivo responde que se limita a respeitar o modelo definido por Pierre Castel em 1992, que separa a titularidade do capital da gestão operacional.
No final de 2025, Alain Castel foi afastado do conselho de administração da DF Holding, sociedade luxemburguesa presidida por Gregory Clerc e que tutela as três principais unidades operacionais do grupo: a Castel Vins, a Castel Afrique, onde se integra o negócio africano das cervejas, e a filial agro-alimentar Somdia.
Em Fevereiro, a assembleia geral da IBBM acabou nos tribunais. Romy e Alain Castel tentaram destituir Gregory Clerc, que contestou a validade da votação. A justiça de Singapura suspendeu-o provisoriamente das funções de administrador da IBBM até à decisão de hoje.
A filha do fundador pede agora o afastamento definitivo do gestor e espera que este perca também o lugar na DF Holding. O círculo de Gregory Clerc afasta esse cenário: a holding é controlada por um fundo fiduciário, entidade que gere a empresa em nome dos beneficiários e que, alegam, poderá ignorar as orientações da IBBM.
Com a escalada do conflito, também Romy Castel saiu dos conselhos de administração da Castel Vins e da Somdia, depois de criticar a eventual venda de uma filial camaronesa. Para a herdeira, essa empresa é essencial à visão do pai de um grupo verticalmente integrado.
A disputa chegou à esfera criminal. Em Genebra, Romy Castel apresentou queixa contra Gregory Clerc por gestão danosa e branqueamento de capitais, por factos do tempo em que este era o seu advogado fiscal pessoal. No Luxemburgo, uma queixa por abuso de bens sociais, ligada à remuneração do gestor, foi considerada pelo Ministério Público de natureza cível e não penal. Em Paris, Gregory Clerc é visado por uma queixa por receptação.
Romy Castel, que reside na Suíça, foi por sua vez formalmente acusada em Genebra de falsificação e uso de documento falso. O presidente executivo acusa-a de ter imitado a assinatura do pai numa procuração, o que a herdeira nega.
Os próximos de Romy Castel defendem que todas as decisões de Singapura desde Fevereiro confirmam uma recuperação gradual e legítima do controlo da governação do grupo, e dizem encarar a nova fase “com a mesma serenidade”.
Do lado da administração, uma fonte desvaloriza o veredicto, que considera apenas mais uma etapa, e contrapõe quem trabalha pela prosperidade de 40.000 pessoas a quem “emite comunicados de imprensa diariamente”. E deixa um aviso: existem várias salvaguardas para impedir que um só ramo da família tome o grupo em prejuízo dos restantes.



