A gigante mineira anglo-australiana Rio Tinto atravessa, desde o Verão passado, um período de profunda reestruturação interna, sob a batuta do seu novo presidente executivo, o australiano Simon Trott.
À frente dos destinos do grupo desde Agosto de 2025, Trott tem vindo a rodear-se de uma direcção de pendor internacional, combinando quadros ocidentais com executivos africanos, numa aposta clara no reforço da presença do grupo no continente africano — e, em particular, em Angola, país onde o interesse pelo cobre se tem vindo a acentuar.
A informação é avançada pela publicação parisiense Africa Intelligence, especializada em assuntos políticos, diplomáticos e económicos do continente africano, na sua rubrica “Círculos Íntimos”.
Trott, de 50 anos, não é propriamente uma cara nova dentro da Rio Tinto. Com mais de duas décadas e meia de carreira dedicadas ao grupo, integra a comissão executiva desde 2018, tendo sido o primeiro director comercial da multinacional e, mais recentemente, presidente da divisão do Minério de Ferro, cargo em que granjeou fama de gestor rigoroso e disciplinado, tanto no plano financeiro como no da segurança industrial.
Foi nesta qualidade que o conselho de administração decidiu confiar-lhe a presidência executiva do grupo, em substituição de Jakob Stausholm, cuja saída, anunciada de forma inesperada, apanhou de surpresa os meios financeiros internacionais.
Uma das primeiras medidas do novo timoneiro foi a reorganização da estrutura executiva e operativa da companhia, simplificando o portefólio em três grandes pólos de negócio: Minério de Ferro, Alumínio e Lítio, e Cobre — sinal inequívoco de que este último metal passará a ocupar lugar cimeiro nas prioridades estratégicas do grupo para os próximos anos.
Segundo dados avançados pela própria empresa, cerca de 85 por cento do orçamento de prospecção do último exercício foi canalizado para o cobre, uma concentração de meios pouco habitual numa multinacional de recursos diversificados como a Rio Tinto, e que traduz bem a aposta firme do grupo na procura futura deste metal, impulsionada pelas exigências da chamada transição energética mundial.
A meta traçada pela administração é ambiciosa: elevar a produção anual para um milhão de toneladas até ao final da década, partindo de uma previsão entre 800 mil e 870 mil toneladas para o corrente ano.
De acordo com relatórios remetidos às autoridades reguladoras norte-americanas, a Rio Tinto mantém actualmente programas de prospecção de cobre — na fase dita de greenfield — em catorze países, entre os quais Angola, a par de projectos já em fase mais avançada, como Nuevo Cobre, no Chile, e Comita, na Colômbia.
O interesse da multinacional britano-australiana pelo território angolano não é, de resto, propriamente recente. A Rio Tinto entrou no mercado angolano em 2021, através de um contrato de investimento mineiro assinado com a Endiama e o Ministério dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, e mantém desde então uma subsidiária dedicada, a Rio Tinto Angola, actualmente sob a direcção-geral de Canga Xaquivuila, antigo presidente do Conselho de Administração do Instituto Geológico de Angola.
No sector diamantífero, o grupo opera através da Sociedade Mineira do Chiri, constituída em parceria com a Endiama, na qual detém uma participação maioritária de 75 por cento. Localizado na rica região diamantífera do leste do país, o projecto deverá vir a transformar-se no terceiro maior produtor de diamantes de Angola, segundo declarações prestadas por responsáveis do sector mineiro angolano.
Mas é no cobre que a multinacional tem vindo a concentrar a sua atenção mais recente. Em Janeiro de 2024, a Rio Tinto assinou com o Governo angolano um contrato de investimento mineiro, avaliado em cerca de 5,7 milhões de dólares, para a prospecção de metais básicos — cobre, cobalto, zinco, titânio e alumínio — na designada “Concessão Moxico”, uma área de quase dez mil quilómetros quadrados nos municípios do Alto Zambeze e Bunda, na província do Moxico, superior à extensão da própria província de Cabinda.
O contrato prevê uma fase inicial de prospecção de até cinco anos, prorrogável por mais dois, seguida de uma fase de exploração de 35 anos, também sujeita a possível extensão. A participação do Estado angolano no projecto está fixada em 0,1 por cento do produto obtido, em espécie, ao abrigo do Código Mineiro do país.
A concessão de Moxico situa-se numa região que já conta com a presença de outras multinacionais mineiras, como a Anglo American e a Ivanhoe Mines, e que alguns analistas apontam como possível extensão do chamado “Cinturão do Cobre” africano, que atravessa a República Democrática do Congo e a Zâmbia.
À data da assinatura do contrato, Canga Xaquivuila sublinhou que a Rio Tinto pretende ser um “parceiro estratégico” do Estado angolano e não ficar apenas no sector dos diamantes, alargando a sua actuação a minérios considerados essenciais para a transição energética mundial.
É este conhecimento acumulado do terreno, aliado à experiência internacional trazida pela nova geração de quadros de direcção, que a Rio Tinto pretende agora capitalizar para alargar a sua actuação a outros recursos minerais, com particular destaque para o cobre, cuja cotação nos mercados internacionais tem conhecido uma valorização assinalável.
Segundo o relato da Africa Intelligence, Simon Trott é descrito por quem lida de perto com ele como um gestor de estilo essencialmente pragmático, pouco dado a grandes discursos e mais virado para os resultados concretos.
A opção por uma equipa mista, com dirigentes ocidentais e africanos a trabalhar lado a lado na expansão dos projectos de mineração e industriais do grupo, é apontada pela publicação francesa como reveladora de uma estratégia de fundo: a de conciliar o conhecimento das realidades locais com a experiência de gestão à escala internacional, num continente que a Rio Tinto considera, cada vez mais, central para o seu crescimento futuro.



