Relatório “Banca em Análise 2026” da Deloitte mostra sector sólido e rentável, mas ainda distante do financiamento à economia real e da massificação da banca móvel vista noutros países africanos.
A banca angolana fechou 2025 com lucros recorde, mas a estrutura do negócio mantém-se praticamente inalterada: juros sobre dívida pública e ganhos cambiais continuam a ser os principais motores dos resultados, com o crédito à economia real a ocupar um lugar secundário. É essa a leitura feita pelo analista Flávio Inocêncio, em publicação no Facebook sobre o relatório “Banca em Análise 2026”, da Deloitte Angola, apresentado a 18 de Junho em Luanda.
Segundo o estudo, que analisou os 21 bancos em actividade no país durante 2025, o sector registou resultados líquidos agregados de cerca de mil milhões de dólares, um crescimento de 23% face ao ano anterior.
O Banco Angolano de Investimentos (BAI) recuperou a liderança do sector, ultrapassando o Banco de Fomento Angola (BFA), que liderava nos dois anos anteriores.
Os cinco maiores bancos concentraram cerca de 78% dos lucros totais do sector.
A Deloitte confirma que essa rentabilidade continua ligada às mesmas fontes habituais: o crescimento dos resultados foi sustentado sobretudo pela margem financeira, pela margem complementar e pelos ganhos cambiais.
No exercício anterior, a consultora já tinha assinalado que o produto bancário cresceu cerca de 20,8%, suportado pela dinâmica da margem financeira e pelo desempenho dos resultados cambiais, que cresceram aproximadamente 29,4% — um padrão recorrente que sustenta a crítica sobre a dependência do sector em relação a operações financeiras, em detrimento do crédito directo a empresas e famílias.
No plano da digitalização há progressos, mas ainda longe da escala vista noutros mercados africanos. O Multicaixa Express passou a concentrar 60% de todas as operações realizadas na rede Multicaixa, e o sistema de pagamentos instantâneos KwiK processou um volume significativo de transacções em 2025.
Ainda assim, a banca móvel angolana continua atrás da massificação alcançada no Quénia, em Gana e em Moçambique, onde soluções como o M-Pesa permitiram o acesso a serviços financeiros mesmo sem conta bancária tradicional.
O próprio presidente da Deloitte Angola, José Barata, reconhece o desafio: a digitalização apresenta-se como um dos principais vectores de transformação do sector, e a inclusão financeira continua a ser um desafio estrutural, com a Estratégia Nacional de Inclusão Financeira 2025-2027 vista como oportunidade para acelerar a bancarização.
No exercício de 2024, a Deloitte já notava que o peso do crédito líquido a clientes na estrutura global de activos tinha subido de 22% para 24%, um valor ainda claramente inferior ao peso histórico da dívida pública e dos títulos no balanço dos bancos.
Para 2026, Barata defende que as instituições devem assumir-se como parceiras estratégicas da transformação económica, indo além do papel tradicional de financiadoras.
O Banco Económico regressou aos lucros pela primeira vez desde 2021, enquanto o Banco Sol foi a única instituição a reportar prejuízos, no âmbito de um processo de recapitalização e reestruturação em curso.
O Banco de Poupança e Crédito (BPC) caiu da quarta para a 20.ª posição no ranking de rentabilidade.
A leitura de Flávio Inocêncio resume um diagnóstico recorrente nas últimas edições do estudo: a banca angolana é sólida e lucrativa, mas continua apoiada mais em juros sobre títulos públicos e em operações cambiais do que em crédito produtivo, avançando a um ritmo lento rumo a um modelo mais digital e inclusivo, em comparação com outros mercados do continente.



