Tóquio está a reformular a sua estratégia para África, deslocando o centro de gravidade da diplomacia japonesa para o continente em direcção a interesses estratégicos e de defesa.
É neste contexto que começam os preparativos para a próxima edição da Conferência Internacional de Tóquio sobre o Desenvolvimento de África (TICAD), agendada para agosto de 2028 e que deverá realizar-se em Abidjan — a primeira vez que a cimeira se realiza na África subsaariana francófona.
O local e a data são o dado imediato; a mudança de fundo é a de um Japão que se afasta do registo predominantemente económico e de ajuda ao desenvolvimento que caracterizou a TICAD desde a sua criação.
A TICAD continua a ser, formalmente, um fórum de desenvolvimento, co-organizado com a ONU, o PNUD, o Banco Mundial e a Comissão da União Africana. Mas a leitura que analistas fazem da última edição, a TICAD 9, realizada em Yokohama em Agosto de 2025, é a de uma recalibração deliberada: Tóquio deixa de se apresentar apenas como doador e passa a posicionar-se como parceiro estratégico, num contexto de concorrência crescente por influência em África entre China, Rússia, Turquia e potências ocidentais.
Essa recalibração já é visível em componentes que, até há pouco tempo, ocupavam um lugar secundário na diplomacia japonesa para o continente. Há mais de duas décadas que o Japão apoia centros de treino das forças de paz da União Africana e já enviou pessoal das Forças de Autodefesa japonesas para apoiar países africanos que contribuem com tropas para missões de paz.
Tóquio financia igualmente iniciativas de combate ao terrorismo no Sahel, no Corno de África e na Nigéria, bem como programas de segurança marítima e de combate ao tráfico no Golfo da Guiné.
Na TICAD 9, o primeiro-ministro Ishiba Shigeru anunciou uma “Plataforma Africana de Acção contra Minas” e reforçou o compromisso japonês com a agenda de Mulheres, Paz e Segurança — sinais de que a componente de defesa deixou de ser um apêndice discreto para passar a fazer parte do discurso central do Japão para África.
Esta viragem surge à medida que a geopolítica em torno de África se intensifica.
Em 2022, o Japão prometeu 30 mil milhões de dólares em financiamento para o continente ao longo de três anos; a China, por comparação, anunciou 51 mil milhões de dólares em empréstimos, investimentos e ajuda apenas no Fórum de Cooperação China-África de 2023.
Face a essa disparidade de escala financeira, Tóquio tem procurado diferenciar-se não pela dimensão dos montantes, mas pela oferta de uma parceria estável, previsível e sem condicionalismos políticos coercivos — um argumento que, cada vez mais, inclui explicitamente a componente de segurança e defesa como parte da proposta de valor do Japão para os seus parceiros africanos.
A escolha da Costa do Marfim para sediar a próxima cimeira, marcando a primeira presença da TICAD na África Ocidental francófona, reforça esta leitura estratégica. É uma região onde a França manteve historicamente influência dominante e onde Rússia e Turquia têm vindo a reforçar presença nos últimos anos, incluindo em matéria de cooperação militar e de segurança.
Ao levar a cimeira para Abidjan em 2028, o Japão sinaliza a intenção de disputar também aí espaço de influência — não apenas económico, mas estratégico.
Os próximos dois anos deverão incluir reuniões ministeriais preparatórias e negociações bilaterais entre Tóquio e Abidjan sobre logística, segurança do evento e agenda temática. Resta saber até que ponto essa agenda temática reflectirá, de forma mais explícita, esta nova centralidade dos interesses estratégicos e de defesa na relação do Japão com África.



