Enquanto a petrolífera dos Emirados Árabes Unidos consolida posições no Egipto e na África do Sul com aquisições bilionárias, a presença angolana continua limitada a uma rede de distribuidores de lubrificantes estabelecida em 2021.
A Companhia Nacional de Petróleo de Abu Dhabi (ADNOC) tem vindo a acelerar a sua expansão em África, através de aquisições e parcerias que lhe têm permitido construir uma presença robusta nos sectores de retalho de combustíveis, gás natural, GNL e exploração e produção. O passo mais recente e mais significativo foi o acordo anunciado a 7 de Julho pela ADNOC Distribution para adquirir o negócio de distribuição da Shell na África do Sul, por um valor estimado em cerca de mil milhões de dólares — a maior aquisição internacional da distribuidora até à data.
O negócio, que envolve 580 postos de abastecimento sul-africanos, deverá expandir a rede da ADNOC Distribution em 55%, para cerca de 1.600 postos, e aumentar o seu volume de combustíveis em 20%. “Entrámos no mercado africano pelo Egipto e pelo norte, e agora continuamos a expandir em África pelo sul”, resumiu o director executivo da empresa, Bader Saeed Al Lamki.
A operação sul-africana segue-se à entrada da ADNOC Distribution no Egipto em 2023, quando adquiriu 50% da TotalEnergies Marketing Egypt — negócio que lhe deu acesso a 240 postos de combustível, mais de 100 lojas de conveniência e cerca de 250 pontos de troca de lubrificantes. Juntas, as duas operações colocam a empresa nos extremos norte e sul do continente.
Neste mapa de expansão, Angola ocupa um lugar bem mais discreto. A ADNOC entrou no país em 2021 através da nomeação de distribuidores locais para a sua linha de lubrificantes Voyager — o mesmo modelo aplicado, na mesma altura, na República Democrática do Congo. Desde então, não houve qualquer aquisição, parceria adicional ou expansão de rede semelhante às registadas no Egipto ou na África do Sul.
O mercado angolano de distribuição de combustíveis continua, aliás, fortemente concentrado em torno de operadores nacionais. Segundo dados do Instituto Regulador dos Derivados do Petróleo (IRDP), a Sonangol Distribuição e Comercialização lidera com 60,8% de quota de mercado, seguida da Pumangol (21,3%), Sonangalp (8,0%), TotalEnergies Marketing Angola (7,2%) e Etu Energias (2,7%). A ADNOC não figura sequer neste ranking.
A ausência de movimentos mais ambiciosos da ADNOC em Angola pode reflectir as características estruturais do próprio mercado. O país gastou 817 milhões de dólares na importação de combustíveis líquidos apenas no primeiro trimestre de 2026, mantendo uma dependência externa superior a 80% — um sinal da limitada capacidade de refinação interna, ao contrário do que Al Lamki descreveu sobre a África do Sul, cujo “ecossistema de downstream” maduro, com capacidade de refino, portos e armazenamento consolidados, teria sido decisivo para a decisão da ADNOC.
Ainda assim, há reformas em curso que podem alterar este cenário a médio prazo. O Governo angolano tem vindo a retirar gradualmente os subsídios aos combustíveis desde 2023, por recomendação do Fundo Monetário Internacional, com uma poupança estimada superior a 2,6 biliões de kwanzas prevista para 2026. Paralelamente, o programa de privatização PROPRIV foi estendido até 2026, numa tentativa do Executivo de reduzir o peso do Estado em sectores-chave e atrair capital privado.
Apesar de Angola não ter beneficiado, para já, do mesmo tipo de investimento dedicado ao Egipto e à África do Sul, nada indica um recuo da ADNOC no país. A presença através dos lubrificantes Voyager mantém-se activa, e a empresa reafirma publicamente que toda a África continua a ser uma “região prioritária” de crescimento. Al Lamki sublinhou ainda que a ADNOC Distribution se define, antes de mais, como “uma empresa de conveniência e retalho” — postos de combustível, lojas de conveniência, combustível de aviação, vendas B2B e lubrificantes —, sem intenção de entrar no sector de refinação, mesmo nos mercados onde já tem posições consolidadas.
Para já, Angola parece ocupar um lugar de espera dentro da estratégia africana da ADNOC: uma posição mínima mas estabelecida, pronta para ser reforçada caso surja uma oportunidade de aquisição semelhante às que motivaram a entrada no Egipto e na África do Sul — nomeadamente através de eventuais activos colocados no mercado pelo processo de privatização em curso.
Angola fora da vaga de aquisições da ADNOC em África
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