A multinacional de commodities Trafigura retirou-se de um projecto de construção de uma linha de transmissão eléctrica de 2.000 megawatts destinada a ligar Angola às regiões mineiras da República Democrática do Congo e da Zâmbia, segundo confirmaram à Reuters duas fontes com conhecimento directo do processo.
A notícia foi avançada recentemente pela Reuters, e confirmada por um responsável do Governo angolano, que precisou que as negociações prosseguem, com alterações na composição do consórcio interessado em levar o projecto por diante.
O empreendimento visava escoar o excedente de energia hidroeléctrica angolana — proveniente sobretudo de barragens como a de Laúca, no rio Kwanza, com capacidade instalada próxima dos 2.070 megawatts — para operações de extracção de cobre e cobalto na RDC e na Zâmbia, países confrontados com escassez crónica de electricidade nas respectivas indústrias mineiras.
A Trafigura havia firmado, em Julho de 2024, um acordo não vinculativo com a empresa de engenharia ProMarks e com o Governo angolano, com vista à realização de estudos de viabilidade para a referida linha.
Nem a Trafigura nem a ProMarks se pronunciaram publicamente sobre os motivos da saída.
Contactada pela Reuters, a Trafigura limitou-se a responder «sem comentários». A decisão surge poucos meses depois de a empresa ter sido condenada, em Janeiro de 2025, pelo Tribunal Penal Federal suíço, por corrupção relacionada com actividades de comercialização de petróleo angolano entre 2009 e 2011 — um processo centrado em subornos no valor de 5 milhões de dólares pagos a um responsável da petrolífera estatal Sonangol, através de uma rede de intermediários, que permitiu à Trafigura assegurar uma posição dominante no comércio de produtos petrolíferos angolanos nesse período.
O tribunal aplicou à empresa uma multa de cerca de 3 milhões de francos suíços (aproximadamente 3,3 milhões de dólares) e uma indemnização na ordem dos 145 milhões de dólares, tendo o antigo director de operações da Trafigura, Mike Wainwright, sido condenado a 32 meses de prisão, dos quais 12 em regime efectivo. Tanto a empresa como Wainwright recorreram da sentença.
A saída da Trafigura não significa, contudo, o fim das ambições de interligação eléctrica entre Angola e a RDC. Avançam pelo menos dois projectos concorrentes: a Meridia Energy — parceria entre a Averi Finance, do Dubai, e a construtora marroquina Somagec — está a desenvolver duas linhas de transmissão, uma das quais ligará Malanje, em Angola, a Fungurume, na província congolesa do Lualaba, reforçando ainda a ligação de Angola ao Southern African Power Pool.
Por seu turno, a norte-americana HYDRO-LINK propõe um corredor de transmissão de 1.200 quilómetros, orçado em 1,5 mil milhões de dólares, com cinco subestações, destinado a servir as províncias congolesas do Lualaba e de Katanga, e cuja construção deverá demorar cerca de dois anos e meio a partir do momento em que estejam reunidas as condições de desenvolvimento e financiamento.
Este último projecto surge ainda associado a uma dimensão geopolítica, sendo visto como parte de um esforço norte-americano para contrabalançar a influência chinesa no sector mineiro da RDC.
A retirada da Trafigura não afecta, segundo indicam analistas do sector, a sua participação no Corredor do Lobito, de que continua a fazer parte enquanto membro do consórcio da Lobito Atlantic Railway, ligando o Copperbelt congolês ao porto angolano do Lobito, no Atlântico — projecto que tem beneficiado de forte apoio de governos ocidentais e de instituições financeiras internacionais interessadas em assegurar cadeias de fornecimento de minerais críticos.
Fontes do sector consideram que a existência de, pelo menos, 3,2 mil milhões de dólares em projectos concorrentes de transmissão eléctrica confirma que o interesse institucional no corredor energético Angola-RD Congo-Zâmbia se mantém intacto, mesmo após a saída da Trafigura, o que sugere que a lógica comercial subjacente — o desequilíbrio entre o excedente de produção angolano e o défice energético do Copperbelt — permanece válida, ainda que os prazos de execução continuem envoltos em incerteza.



