Roger Sahyoun dirige a Somagec há 25 anos e lidera a interligação eléctrica entre Angola e a RDC, avaliada em 1,3 mil milhões de dólares.
Pouco dado a entrevistas e a aparições públicas, o empresário franco-libanês Roger Sahyoun tornou-se, nos últimos três anos, um dos parceiros privados mais relevantes do Executivo angolano na área da energia. Presidente do grupo marroquino Somagec, é hoje o rosto por detrás de um dos maiores projectos energéticos privados alguma vez anunciados para o país: a interligação eléctrica entre Angola e a República Democrática do Congo (RDC), avaliada em 1,3 mil milhões de dólares.
Engenheiro formado pela École Spéciale des Travaux Publics, em Paris, Sahyoun dirige a Somagec (Société Maghrébine de Génie Civil) há cerca de 25 anos, tendo sucedido ao pai, Rizkallah Riad Sahyoun, fundador da empresa em Marrocos, em 1966.
O grupo, hoje presente em vários países africanos, ergueu a sua reputação em obras como o porto de Tanger-Med — actualmente o maior porto do continente em volume de contentores —, a Marina de Casablanca e o reordenamento do Vale de Bouregreg.
Foi em 2005 que a Somagec deu o salto para a África subsariana, com a criação de uma filial na Guiné Equatorial, onde emprega actualmente mais de 2.500 trabalhadores.
Seguiram-se projectos no Senegal, na Mauritânia, no Benim, no Togo e em Moçambique, antes de a empresa fixar Angola como uma das suas apostas estratégicas para a década.
O primeiro contrato de relevo do grupo no país remonta a Novembro de 2023, com a assinatura de um memorando de entendimento com a Ducab Group, dos Emirados Árabes Unidos, para a construção de mais de 400 quilómetros de linhas de transmissão de 220 kV — infra-estrutura destinada a levar a energia produzida por quatro centrais hidroeléctricas angolanas a boa parte do território nacional.
O passo seguinte foi dado a 31 de Janeiro de 2025, em Luanda, com a assinatura de um acordo entre a Rede Nacional de Transporte de Electricidade (RNT) e a Somagec Energy Holding Ltd., subsidiária criada pelo grupo para estruturar a sua actividade no sector energético.
A cerimónia contou com a presença do titular da pasta da Energia e Águas, João Baptista Borges, e da embaixadora de Marrocos em Angola, Saadia El Alaoui.
O protocolo, sem custos directos para o Erário Público, prevê a concepção, o financiamento, a construção e a exploração de duas interligações eléctricas de 400 kV entre Angola e a RDC, segundo o modelo BOOT — Build, Own, Operate and Transfer, que transfere a infra-estrutura para o Estado no final da concessão.
Sahyoun tem descrito o empreendimento como uma “auto-estrada de electricidade”, numa alusão à “Auto-estrada da Água” que o grupo construiu em Marrocos.
O compromisso ganhou forma jurídica em Julho de 2026, com a assinatura, pelo Presidente da República, do Decreto Presidencial n.º 115/26, que atribui à Somagec Energy Holding Limited uma concessão de 30 anos para operar o designado Corredor Norte — sistema de transporte de electricidade ao longo do eixo Soyo-Matadi-Inga, com uma linha de 400 kV e capacidade inicial de 800 MW, escalável até 1,2 GW.
Além de reforçar o abastecimento eléctrico à província de Cabinda, o projecto destina-se sobretudo a escoar o excedente de produção angolana — estimado em 2.000 MW, numa capacidade nacional instalada a caminho dos 3,5 GW — para as regiões mineiras da RDC, nomeadamente Kolwezi, cronicamente afectadas por défices energéticos.
A potencial receita do negócio está avaliada em 750 milhões de dólares por ano.
A fiscalização técnica, económica e ambiental do contrato caberá ao Ministério da Energia e Águas e ao Instituto Regulador dos Serviços de Electricidade e Águas (IRSEA).
A entrada em vigor do acordo depende ainda da aprovação final dos estudos de viabilidade, da confirmação da estrutura de financiamento pela concessionária e da validação técnica do traçado por parte da RNT.
A expansão da Somagec por África não tem sido isenta de contestação. Na Guiné Equatorial, a actuação do grupo na ilha de Annobón — onde desenvolve projectos portuários e de extracção — tem sido alvo de críticas de organizações ambientalistas e da população local, que apontam explosões diárias e impactos ambientais e sociais significativos.
Questionado sobre o tema, Sahyoun tem-se limitado a sublinhar que a empresa “trabalha para o Estado” e “não se envolve em política”.
Em Angola, por ora, o nome da Somagec surge sobretudo associado ao papel de parceiro estratégico do Executivo na modernização e regionalização do sector eléctrico nacional — uma aposta que, a concretizar-se nos termos anunciados, poderá colocar o país entre os principais exportadores de energia da África Austral e Central na próxima década.



