A eventual saída do grupo chinês Fosun do capital do Millennium BCP está a agitar o mercado bancário ibérico e a despertar o apetite de instituições como o BBVA e o CaixaBank. Mas há um accionista que não está em modo de venda: a Sonangol.
A petrolífera estatal angolana, segundo maior accionista do maior banco privado português, reafirmou que o BCP é um activo estratégico e que não está disponível para negociar a sua saída.
O Grupo Sonangol detém uma participação qualificada de 19,49% do capital do BCP, ocupando o segundo lugar na estrutura accionista do banco. Esta posição não é acidental: foi construída ao longo dos anos como parte de uma estratégia deliberada de diversificação do portfólio da empresa, para além do sector petrolífero. Osvaldo Inácio, administrador da Sonangol, foi inequívoco recentemente em conferência de imprensa em Luanda: o objectivo estratégico é manter os dois activos portugueses — o BCP e a Galp. “Temos de manter um portfólio relativamente diversificado, que depois ajuda a lidar com os choques económicos”, declarou.
Os resultados de 2025 revelam até que ponto o banco português se tornou estrutural para as finanças da petrolífera. Mais de metade dos proveitos da Sonangol — 53% — vieram de dividendos de participações externas: a Angola LNG, o Millennium BCP e a Galp. Desse conjunto, o BCP contribuiu com 91,5 mil milhões de kwanzas, enquanto a Galp acrescentou 53,8 mil milhões.
O segmento corporativo da empresa foi o principal gerador de valor em 2025, com um resultado positivo de 949,3 mil milhões de kwanzas, superando os lucros obtidos directamente da exploração e produção de petróleo. Em Maio de 2026, o banco propôs ainda distribuir cerca de 550 milhões de dólares em dividendos, com a Sonangol entre os principais beneficiários, num regime de payout de 50% dos lucros anuais.
O contexto que agita o mercado é a iminente saída da Fosun. O grupo chinês, que detém 20,45% do BCP, está a avaliar opções para reduzir a sua elevada dívida, passando pela alienação de participações financeiras. A sua quota no banco português está avaliada em cerca de 2,7 mil milhões de euros. Esta janela de oportunidade despertou o interesse de bancos espanhóis: o BBVA, que falhou a aquisição do Sabadell, vê no BCP uma alternativa de dimensão semelhante — cerca de 14 mil milhões de euros em bolsa —, enquanto o CaixaBank, já presente em Portugal através do BPI, é outro nome apontado.
O Governo português levanta, porém, objecções de fundo. O ministro das Finanças, Joaquim Miranda Sarmento, declarou que a presença espanhola não deveria aumentar num mercado onde já controla cerca de 40% do crédito.
Com a saída da Fosun, a Sonangol vê o seu peso relativo na estrutura accionista do BCP potencialmente valorizado. Num cenário em que nenhum outro grande accionista surja para substituir os chineses, Angola consolida-se como o maior bloco de capital estável no banco — uma posição com implicações directas no processo de decisão sobre o futuro da instituição.



