O comércio entre os Emirados Árabes Unidos e o continente africano ultrapassou, em 2025, os 158 mil milhões de dólares, num sinal daquilo que constitui já uma mudança estrutural nas relações económicas entre o Golfo e África, com o Dubai a reforçar progressivamente o seu controlo sobre portos africanos, acordos comerciais e novas áreas de investimento.
Segundo os números divulgados, o comércio não petrolífero entre os dois lados atingiu, no ano passado, os referidos 158 mil milhões de dólares, um crescimento de 41,6 por cento face a 2024.
Nesse período, o peso de África no comércio não petrolífero total dos Emirados subiu para 15,5 por cento, quando em 2019 não ultrapassava os 10,8 por cento, uma evolução alcançada em apenas seis anos.
O contexto mais alargado é igualmente relevante. Dados oficiais dos Emirados Árabes Unidos indicam que o comércio externo do país, excluindo o petróleo, atingiu, em 2025, 3,8 biliões de dirhams, cerca de 1,03 biliões de dólares, um crescimento superior a 26 por cento face ao ano anterior.
África representa, actualmente, uma parcela significativa deste valor, deixando de ser uma componente marginal da balança comercial emiratense.
De acordo com dados da fDi Markets, do Financial Times, entidades sediadas nos Emirados Árabes Unidos anunciaram, desde 2017, mais de 168 mil milhões de dólares em projectos de raiz em África, abrangendo os sectores da energia, tecnologia, infra-estruturas, logística e mineração. Parte substancial deste capital ainda não foi efectivamente investida, mas a carteira de projectos é extensa e a intenção dos investidores é clara.
Portos e concessões constituem a base desta estratégia. A DP World detém terminais portuários desde a África Ocidental até ao Oceano Índico, geralmente ao abrigo de concessões de longo prazo, entre as quais se destaca uma concessão de 30 anos para um novo terminal de contentores em Pointe-Noire, na República do Congo.
Este tipo de acordo permite aos operadores uma visão alargada dos fluxos de carga e possibilita aos governos africanos o acesso a capital e a melhorias técnicas sem necessidade de despesa pública imediata.
O projecto do porto de águas profundas de Ndayane, da DP World, no Senegal, avaliado em 1,2 mil milhões de dólares, ilustra a dimensão deste movimento. Também o AD Ports Group detém concessões na Tanzânia e em Angola, num quadro em que as rotas comerciais africanas são cada vez mais direccionadas para os centros do Golfo.
Os Emirados Árabes Unidos têm reforçado estas posições físicas através de acordos comerciais, entre os quais um Acordo Abrangente de Parceria Económica (CEPA) assinado com o Quénia, prevendo-se a exploração de estruturas semelhantes noutras regiões do continente.
Estes acordos reduzem tarifas, agilizam o desalfandegamento e ampliam o acesso ao mercado, permitindo ainda às empresas emiratenses integrar o financiamento comercial nas cadeias de abastecimento de matérias-primas.
Para os investidores institucionais, o capital do Golfo, descrito como paciente e estratégico, dirige-se sobretudo a activos físicos, como portos, terminais e centrais energéticas, geradores de fluxos de caixa de longo prazo, num perfil considerado atractivo dado tratar-se de activos reais, com períodos de concessão alargados e volumes de comércio subjacentes em expansão.
Persiste, contudo, um risco de concentração, na medida em que um número reduzido de operadores controla actualmente os principais portos de entrada em África, o que poderá influenciar, ao longo do tempo, os níveis tarifários, os preços de movimentação de cargas e a capacidade negocial das autoridades portuárias africanas.
Este movimento surge a par de outros fluxos de capital do Golfo, incluindo investimentos ligados aos Emirados Árabes Unidos no sector energético africano e parcerias estratégicas do Ruanda com países do Golfo, num quadro em que os Emirados Árabes Unidos não se limitam a comerciar com África, mas constroem a infra-estrutura através da qual o comércio africano deverá escoar nas próximas décadas.



