Em entrevista à Asia Pacific Research Circle (APRC), concedida a Isabella Martins, o antigo Vice-Presidente da República de Angola, Manuel Domingos Vicente, que exerceu o cargo entre 2012 e 2017, sob a presidência de José Eduardo dos Santos, e que dirigiu a Sonangol durante mais de uma década, diz que a responsabilidade pelos termos menos vantajosos dos empréstimos chineses a Angola foi dos próprios angolanos, e não de Pequim.
Angola tornou-se independente de Portugal a 11 de Novembro de 1975, após cerca de cinco séculos de domínio colonial, mas mergulhou quase de imediato numa guerra fratricida que se prolongaria, com interrupções, até Fevereiro de 2002. O conflito opôs o MPLA — no poder desde a Proclamação da Independência, apoiado pela União Soviética e por Cuba — à UNITA, apoiada em diversos momentos pelos Estados Unidos e pela África do Sul do apartheid.
A guerra só terminou com a morte do líder da UNITA, Jonas Savimbi, deixando o país com as infra-estruturas e as finanças públicas praticamente destruídas.
Angola é, hoje, o segundo maior produtor de crude de África, logo atrás da Nigéria.
O petróleo representa cerca de um quinto do PIB nacional e perto de metade da receita do Estado, mas a produção tem vindo a cair de forma sustentada há mais de uma década — de um pico de aproximadamente 1,9 milhões de barris diários, entre 2008 e 2010, para cerca de 1,03 milhões em 2025.
Em Janeiro de 2024, Angola saiu da OPEP após recusar uma quota que Luanda considerou irrealista, ainda que analistas apontem a maturidade dos campos petrolíferos e o abrandamento do investimento, mais do que o cartel, como causas do declínio.
Ao longo de cerca de duas décadas, instituições chinesas comprometeram mais de 42 mil milhões de dólares em empréstimos a Angola — mais do que a qualquer outro país africano. No final de 2021, Angola devia 13,6 mil milhões de dólares ao China Development Bank e 4 mil milhões ao China Exim Bank, cerca de 40% da sua dívida externa pública.
O mecanismo ficou conhecido como “modelo angolano”: financiamento de infra-estruturas garantido por entregas futuras de petróleo, com cargas de crude directamente penhoradas ao serviço da dívida. O ciclo está, no entanto, a fechar-se: Angola deixou de contrair empréstimos chineses garantidos por recursos naturais em 2017, e a dívida angolana à China garantida por petróleo caiu quase um quarto no último ano, para 7,73 mil milhões de dólares. Quando, no início de 2026, Angola procurou um novo financiamento chinês de 4,8 mil milhões de dólares para a refinaria do Lobito, as condições já não incluíam o petróleo como garantia.
Segundo o antigo homem forte da Sonangol, a viragem para a China não resultou de uma escolha estratégica, mas da recusa dos parceiros ocidentais. Duas semanas depois do fim da guerra, em Fevereiro de 2002, uma delegação do Governo angolano — da qual Vicente fazia parte — embarcou rumo a Washington, à procura de capital para reconstruir o país. “Não conseguimos convencer o governo americano a dar-nos essa ajuda”, afirma.
A delegação abordou também o Clube de Paris, o Banco Mundial e o FMI, sem sucesso. “Não nos deram atenção. Foi por isso que nos viramos para o Leste.”
O primeiro financiamento chinês, de dois mil milhões de dólares, foi garantido por petróleo e destinado à reconstrução do país. Seguiram-se muitos outros, num processo que se tornaria uma das relações mais analisadas na literatura sobre financiamento China-África.
Na sua visão, a narrativa dominante — de uma China que chega a África munida de capital e de uma estratégia predatória — inverte a verdadeira cronologia dos acontecimentos. Angola procurou primeiro financiamento ocidental, foi recusada, e só depois se virou para Leste, por falta de alternativas. Sobre as motivações de Pequim, Vicente não é sentimental: “Neste mundo, cada um tem os seus próprios interesses.” Quanto à reacção ocidental, uma vez que a cooperação começou a produzir resultados, é mais directo: “O problema, na minha opinião e pela minha experiência, foi ciúme. Acho que o Ocidente não acreditava que esta cooperação teria sucesso. Quando começaram a ver os resultados, ficaram com ciúmes.”
Questionado sobre se a postura da China para com Angola mudou ao longo do tempo — se Pequim exigiu mais quando Angola estava mais fragilizada, logo após a guerra —, Vicente rejeita a premissa e coloca a responsabilidade do lado angolano. “Acho que eles não mudaram o modo de negociar. Diria que houve erros. Sim, houve. Mas foi nosso erro. Não foi erro deles. Porque não defendemos os nossos interesses com firmeza. Eles jogam e usam sempre a mesma abordagem. Tentam obter o máximo que puderem. É preciso definir limites.”
A tese habitual sobre a “armadilha da dívida” apresenta os Estados africanos como vítimas de uma estratégia deliberada; a narrativa oposta acusa a crítica ocidental de hipocrisia face a uma parceria fundamentalmente sólida.
Manuel Vicente adopta uma terceira posição: a assimetria foi real, os negociadores chineses comportaram-se exactamente como negociadores se comportam, e a responsabilidade pelo que Angola não conseguiu assegurar recai sobre os angolanos que estavam à mesa. “Neste mundo, as regras são iguais para todos. É preciso lutar pelos próprios interesses, sabendo que o outro lado vai lutar pelos seus. A ideia é encontrar um ponto em comum, uma situação de ganho mútuo. Se não tomarmos cuidado e não defendermos os nossos interesses, eles vão ficar com a maior parte.”
Sobre a estrutura dos empréstimos, Manuel Vicente é específico: Angola manteve o direito de escolher os projectos, empresas chinesas executaram-nos, e uma percentagem dos orçamentos foi reservada a conteúdo local, em materiais ou mão-de-obra — ainda que a entrevista não esclareça se essa condição foi efectivamente cumprida na prática.
Questionado sobre a posição de Angola na disputa entre Estados Unidos, China e Rússia, Vicente é directo: “É bom quando os grandes gigantes estão a lutar entre si. Enquanto estão distraídos, se conseguirmos tirar proveito, é bom para nós.” Mas, na sua visão, este posicionamento externo é secundário face às prioridades internas. Três temas recorrem ao longo da conversa.
Primeiro, deixar de exportar matérias-primas em bruto. “Devíamos deixar de ser exportadores de matérias-primas. Devíamos aumentar a cooperação com todos os países e empresas do mundo, mas transformar estes materiais internamente. Continuando a exportar diamantes, petróleo, minério de ferro e tudo o resto, não vamos lá chegar.” A refinaria do Lobito, actualmente em construção — e financiada, mais uma vez, por Pequim —, é o projecto através do qual Angola pretende tornar-se um pólo regional de refinação, fornecendo a República Democrática do Congo, a Zâmbia e a África do Sul.
Segundo, reforçar o comércio intra-africano antes de aprofundar relações externas. “Antes de pensarmos em aumentar a cooperação com o Ocidente e com estes grandes gigantes, devíamos aumentar o nosso comércio interno em África”, afirma, apontando as barreiras entre Angola e a Namíbia, ou entre Angola e a RDC. Sobre a viabilidade de uma rede de transportes trans-africana, a resposta é directa: “Se construirmos as ferradas e as estradas, e garantirmos a circulação de pessoas, o resto resolve-se sozinho.”
Terceiro, conhecer a própria população. “Dizemos que a Nigéria tem hoje 250 milhões de pessoas. Estarão todas registadas? É uma questão”, nota, defendendo que, sem dados demográficos fiáveis, é difícil qualquer Estado africano planear o futuro.
Questionado sobre o que os académicos que estudam as relações África-Ásia estão a ignorar, Vicente é directo: “Com todo o respeito, acho que a maioria das pessoas que escrevem estes artigos nunca lá estiveram. Não conhecem a realidade.” Distingue, no entanto, entre analistas que observam no terreno e outros que, no seu entender, “trabalham para outra pessoa”, cuja opinião reflecte “a opinião do dono da rede”, e não uma avaliação independente.
Vale a pena notar, com igual equilíbrio, que o próprio percurso público de Manuel Vicente tem sido, também ele, objecto do escrutínio externo que descreve — um contexto que caberá a cada leitor ponderar.
Questionado, por fim, sobre o que gostaria que fosse melhor compreendido a respeito de Angola, Manuel Vicente responde: “Quando as pessoas falam de Angola, pensam que estão a falar de petróleo. Mas não temos só petróleo. Temos muitas outras coisas.” E remata: “Diria que a culpa não é deles. É nossa. Devíamos ser nós a promover as nossas próprias capacidades, a nossa própria realidade.”



