Um relatório do “think tank” britânico E3G, especializado em clima e política externa, coloca Angola entre os produtores petrolíferos mais expostos ao que designa por “fim de jogo” do petróleo — o período, já em curso, em que o consumo mundial de crude atinge o seu pico e começa, depois, a decrescer.
Os dados foram avançados pelo jornal The Guardian, na terça-feira, com base no estudo intitulado “Playing the Oil Endgame”.
A conclusão central é dura: a transição energética global poderá devastar as economias dependentes de combustíveis fósseis já a partir de 2030. Angola surge identificada como um dos casos mais críticos, devido à extrema dependência fiscal do sector petrolífero e à reduzida margem de manobra financeira do Estado.
Trata-se, sublinhe-se, de projecções, e não de previsões de perdas certas. O desfecho dependerá da velocidade da transição energética, da evolução dos preços do petróleo, dos custos de produção e da capacidade dos países exportadores para diversificarem as respectivas economias.
Segundo os dados citados no estudo, o petróleo bruto e os seus derivados representam 90% do valor total das exportações angolanas — uma das taxas de concentração mais elevadas entre os países analisados. Esta dependência deixa a economia extremamente exposta a oscilações no preço internacional do crude e à queda estrutural da procura, à medida que o mundo avança na transição para fontes de energia mais limpas.
Um dos dados mais preocupantes apontados pelo E3G é o facto de cerca de 30% da receita governamental angolana ser actualmente utilizada para pagar o serviço da dívida pública. Este peso limita significativamente a capacidade do Estado para investir em diversificação económica, infra-estruturas ou protecção social, precisamente numa altura em que as receitas petrolíferas tendem a diminuir.
O relatório coloca ainda Angola como o terceiro produtor petrolífero mais vulnerável às alterações climáticas, segundo o índice ND-GAIN. A combinação entre dependência económica do petróleo e exposição climática traduz-se num duplo risco: o país arrisca perder a sua principal fonte de receita externa, ao mesmo tempo que enfrenta impactos ambientais crescentes.
Na simulação “Oil Endgame”, concebida pelo E3G para ilustrar diferentes trajectórias possíveis dos países produtores, Angola surge classificada como “weak producer” (produtor fraco) — categoria que traduz baixo PIB per capita associado a uma dependência elevadíssima das receitas petrolíferas por parte do Estado, ao contrário de arquétipos como a Noruega (produtor rico não-dependente) ou os Emirados Árabes Unidos (petroestado em diversificação).
Angola surge ao lado de outros dois grandes produtores africanos — Argélia e Nigéria — no grupo de países identificados pelo E3G como particularmente expostos a este cenário.
Segundo o relatório, a Argélia e a Nigéria são excepcionalmente vulneráveis, enfrentando potenciais perdas de receita petrolífera de até 87% e 60%, respectivamente. Ao contrário dos produtores mais ricos do Golfo — como a Arábia Saudita ou os Emirados Árabes Unidos, nenhuma das duas nações dispõe das reservas financeiras necessárias para absorver choques prolongados do mercado.
Consequentemente, segundo o E3G, ambos os governos devem ponderar, com urgência, os lucros imediatos obtidos com o petróleo face ao grave risco de os investimentos de longo prazo se tornarem inviáveis.
Para o “think tank”, estes casos incluindo o de Angola, ilustram a urgência de diversificação económica nos países fortemente dependentes de receitas petrolíferas, sob pena de enfrentarem crises fiscais severas já a partir da próxima década.



