Num arquipélago historicamente marcado pela emigração e dependente do turismo, Cabo Verde traça um plano ambicioso: tornar a economia digital responsável por 25% do PIB até 2030.
O país já lidera o continente africano em conectividade, com uma taxa de penetração da Internet de 75% — o dobro da média africana —, mas enfrenta um paradoxo cruel: quanto mais qualificados forma, mais rapidamente os perde para o mundo.
A comparação com a Estónia não é por acaso. O pequeno país do norte da Europa tornou-se símbolo mundial de digitalização económica, e Cabo Verde quer replicar esse sucesso no contexto africano.
O secretário de Estado para a Economia Digital, Pedro Fernandes Lopes, declarou ao jornal britânico The Guardian que a visão passa por transformar o arquipélago num “farol” para a livre circulação de pessoas e capitais em toda a diáspora africana global.
A Secretaria de Estado para a Economia Digital foi criada em 2021 precisamente para coordenar esta transformação. A ironia histórica não escapa ao próprio secretário de Estado: “As rotas marítimas por onde antes passou o tráfico de escravos são as mesmas por onde passam agora os cabos submarinos que trazem a Internet de alta velocidade.”
No terreno, os sinais desta aposta são concretos. A TechParkCV — um hub digital que alberga entidades públicas e privadas, com instalações na Cidade da Praia e uma filial no Mindelo — representa um investimento de cerca de 52 milhões de euros, maioritariamente financiado pelo Banco Africano de Desenvolvimento.
Nas escolas, robótica e programação informática já fazem parte dos currículos. Foi também esta base digital que permitiu ao país suavizar o impacto devastador da pandemia de Covid-19 sobre o turismo, principal pilar da economia cabo-verdiana.
O talão de Aquiles desta estratégia tem nome: fuga de cérebros. Cabo Verde detém uma das maiores taxas de emigração do mundo. Estima-se que a diáspora cabo-verdiana seja três a quatro vezes superior à população residente — cerca de 529.000 habitantes.
Formar engenheiros, programadores e especialistas digitais para os ver partir é um ciclo que o governo está determinado a quebrar, apostando na criação de oportunidades locais competitivas com o mercado global.
A questão que fica no ar é se um pequeno arquipélago atlântico conseguirá, desta vez, fazer com que o mundo venha até si — em vez de ser o seu povo a partir à procura do mundo.



