O director-geral da Lobito Atlantic Railway (LAR), Nicholas Fournier, garantiu que a operação ferroviária do Corredor do Lobito tem como única prioridade o negócio, afastando qualquer conotação geopolítica associada ao projecto.
A declaração foi prestada em entrevista à TV France 24, na cidade portuária do Lobito.
“Estamos nas Américas, na Europa ou na Ásia. Por isso, somos totalmente apolíticos”, afirmou Fournier, sublinhando que cerca de 70 por cento das minas na República Democrática do Congo (RDC) são de propriedade chinesa e que algumas já utilizam a linha para exportar cobre e importar enxofre, insumo essencial no processamento do metal.
A LAR detém uma concessão de 30 anos para operar a histórica Linha do Benguela, espinha dorsal do Corredor do Lobito — uma rota que liga Angola ao cinturão mineiro da RDC e que, a longo prazo, pretende estender-se à Zâmbia.
A empresa é detida por um consórcio liderado pelo grupo de matérias-primas Trafigura e pela construtora portuguesa Mota-Engil, cada uma com 49,5 por cento do capital, e pelo operador ferroviário belga Vecturis, com um por cento.
Desde o início das operações, em 2023, a LAR é responsável pelo tráfego de mercadorias no troço angolano, enquanto os serviços de passageiros estão a cargo da empresa estatal Caminho de Ferro de Benguela (CFB).
Em 2025, circularam cinco mil comboios em Angola, dos quais 90 por cento de passageiros.
Na rota congolesa, a LAR opera actualmente até um “comboio de cobre” por dia com destino ao Lobito e um “comboio de enxofre” diário no sentido inverso. O cobre — transportado em placas de cátodo em contentores selados — representa 95 por cento do volume de carga proveniente da RDC. Cobalto já foi igualmente transportado, embalado em sacos de uma tonelada.
Apesar da crescente procura por outros minerais estratégicos, o responsável mantém o foco. “Recebemos muitas propostas para manganês e para lítio. Mas por agora, estamos concentrados no que tem maior procura: o cobre”, disse Fournier.
Para aumentar a escala das operações, será necessário melhorar a infraestrutura do lado congolês.
A LAR apoia a operadora ferroviária estatal da RDC, a SNCC, com financiamento e assistência técnica para reabilitar a linha entre a fronteira angolana, Kolwezi e Lubumbashi, a principal cidade do cinturão cuprífero. “Em dois anos, estamos confiantes de que teremos uma linha contínua do Lobito a Kolwezi”, afirmou o CEO.
Já a extensão à Zâmbia — frequentemente descrita como o elo em falta do corredor — não consta dos planos imediatos. “Fomos contactados para inúmeras discussões sobre uma possível extensão a Ndola, mas de momento não está verdadeiramente no meu radar”, reconheceu Fournier, apontando a dimensão e o custo da reabilitação necessária.
A entrevista decorreu num momento de pressão para a empresa: cheias severas na província do Benguela obrigaram a activar um plano de contingência. Com a linha danificada, a LAR recorreu a um transporte rodoviário alternativo de 350 quilómetros até a carga poder ser recolocada em comboio.
“Infelizmente, não há outra forma senão usar camiões neste tipo de situação”, admitiu o responsável, prevendo semanas de trabalho de reparação.



