A decisão do Governo chinês de aplicar tarifa zero às exportações de 53 países africanos com os quais mantém relações diplomáticas, a partir de 1 de Maio de 2026, marca um passo estratégico no aprofundamento das relações económicas com o continente. A medida visa reforçar a integração comercial, garantir acesso a matérias-primas críticas e consolidar a influência económica de Pequim em África.
A China é, há 15 anos consecutivos, o principal parceiro comercial africano, com o comércio bilateral a ultrapassar 340 mil milhões de dólares em 2025. A estrutura das trocas continua, porém, assimétrica: África exporta sobretudo petróleo, minerais e metais – como cobre, cobalto, ouro, diamantes e bauxite – enquanto importa maquinaria, tecnologia, veículos, equipamentos eléctricos e bens de consumo.
A eliminação das tarifas poderá aumentar a competitividade de produtos agrícolas e industriais africanos, como cacau, café, algodão, frutas tropicais e pescado processado. No entanto, especialistas alertam que o verdadeiro desafio está na capacidade produtiva dos países africanos, incluindo certificação sanitária, logística portuária e escala industrial suficiente para aproveitar a abertura do mercado chinês.
O anúncio surge num contexto de tensões comerciais globais, em que Pequim procura diversificar parceiros e reduzir dependências estratégicas. Os investimentos chineses em África concentram-se em sectores estruturantes, como energia, mineração, infra-estruturas de transporte, telecomunicações e parques industriais.
Desde a criação do Fórum de Cooperação China-África (FOCAC), em 2000, o financiamento público e créditos chineses ao continente ultrapassaram 180 mil milhões de dólares, aos quais se juntam cerca de 130 mil milhões em investimento directo. Angola, por exemplo, recebeu mais de 45 mil milhões de dólares em linhas de crédito desde 2002, maioritariamente garantidas por petróleo.
Empresas como a Huawei, a China National Petroleum Corporation e a China Railway Construction Corporation participam na construção de barragens, portos, estradas, refinarias, redes 5G e minas em vários países africanos, num esforço coordenado de diplomacia económica liderado pelo Presidente Xi Jinping.
Apesar dos benefícios, a parceria levanta preocupações quanto à dívida. A China é hoje o maior credor bilateral de África, com cerca de 85 mil milhões de dólares em dívida pública garantida. Países como Angola, Zâmbia, Etiópia e Quénia figuram entre os mais expostos a financiamentos chineses, sobretudo através do modelo “recursos por infra-estrutura”.
Analistas sublinham que o impacto real da tarifa zero dependerá da capacidade africana de transformar vantagens naturais em produção industrial sustentável. Mais do que o acesso ao mercado chinês, a questão central será saber se os países africanos conseguem converter essa oportunidade em industrialização, diversificação económica e emprego.


