O investigador Rui Verde lança uma análise demolidora sobre o lugar de Portugal na política externa angolana: o país foi ultrapassado e reduziu-se a uma relação de nostalgia, vinho e futebol, enquanto Angola reorienta estrategicamente as suas alianças para os grandes players europeus e globais.
A provocação surge a propósito do lançamento do livro Breve História de Angola desde a Independência (1975-2025), marcado para 5 de Junho na Voz do Operário, em Lisboa.
Investigador associado na Universidade de Oxford e na Universidade Paris-Cité, Verde traça um retrato de uma Angola em clara ruptura com o seu passado diplomático.
A primeira grande viragem deu-se com a Rússia. Sob a presidência de João Lourenço, o relacionamento histórico com Moscovo entrou em colapso, com o julgamento de alegados agentes ligados ao grupo paramilitar Wagner, acusados de tentarem desestabilizar o regime. Para Verde, trata-se de uma novidade sem precedentes na história política angolana.
Também a relação com Pequim está a ser revista. Luanda percebeu que os empréstimos chineses funcionaram como uma armadilha: o dinheiro entrava em circuito fechado — crédito para empresas chinesas, obras feitas por chinesas, pagas com petróleo angolano. O resultado foi uma dependência financeira insustentável que o actual executivo está determinado a corrigir.
É aqui que a análise se torna mais incómoda para Lisboa. Verde é cirúrgico: dois terços dos ministros angolanos têm nacionalidade portuguesa, acompanham o Benfica e o Porto, vêm a Lisboa comprar roupa na Avenida da Liberdade. Mas quando se trata de investimento estratégico ou influência política real, Portugal simplesmente não existe. O embaixador português já não é o interlocutor privilegiado da Europa em Luanda — esse papel foi cedido a Paris, Madrid, Berlim e Londres. A adesão de Angola à Francofonia como observadora é o símbolo mais claro desta reorientação. João Lourenço, sublinha Verde, “não liga muito à CPLP”.
Com as eleições de 2027 a fecharem-lhe constitucionalmente a porta a um terceiro mandato, o Presidente angolano pode estar a construir um legado que o projecte para a cena internacional.
A presidência da União Africana e o esforço de mediação no conflito na República Democrática do Congo — ainda que Verde o considere pouco mais do que “conversa”, por falta de mecanismos de pressão reais — reforçam esse perfil. “Creio que essa perspectiva existe”, conclui o investigador.



