Portugal continua a ser, de longe, o destino preferido dos angolanos que investem fora do País. Em 2025, o stock de investimento angolano em território português disparou 34%, passando de 2.306 milhões de dólares para 3.096 milhões de dólares, segundo cálculos do jornal Expansão com base no relatório do Banco Nacional de Angola (BNA) sobre a Balança de Pagamentos e Posição do Investimento Internacional de Angola.
O crescimento é ainda mais notório quando comparado com o total: a carteira global de investimentos de angolanos no estrangeiro cresceu apenas 120 milhões de dólares no mesmo período, fixando-se em 5.445 milhões de dólares. Ou seja, praticamente todo o crescimento do investimento angolano lá fora em 2025 concentrou-se num único destino — Portugal.
O relatório do banco central angolano identifica apenas cinco jurisdições onde os angolanos têm investimentos no exterior. Portugal, que inclui a offshore da ilha da Madeira, continua a absorver a maior fatia do capital angolano aplicado fora do País. As Maurícias, paraíso fiscal, viram o seu stock de investimento angolano subir 70 milhões de dólares em 2025, enquanto a Ilha de Man, outro paraíso fiscal, registou uma ligeira queda de 4 milhões de dólares. Completam a lista São Tomé e Príncipe e Cabo Verde, os dois destinos africanos identificados pelo BNA.
Portugal é, por larga margem, o principal destino do capital angolano no estrangeiro, beneficiando da proximidade histórica, linguística e cultural entre os dois países, além de uma base empresarial e imobiliária já consolidada por décadas de investimento. A esta relação soma-se a Zona Franca da Madeira, um regime fiscal especial que oferece taxas reduzidas de Imposto sobre o Rendimento das Pessoas Colectivas (IRC) a empresas ali registadas, tornando-a um veículo apetecível para canalizar capital angolano para a Europa.
Maurícias é um arquipélago no Oceano Índico amplamente conhecido como praça financeira offshore, com um regime fiscal favorável, ausência de imposto sobre mais-valias e uma rede extensa de acordos de dupla tributação que facilita a estruturação de investimentos internacionais, incluindo participações em empresas africanas.
Ilha de Man é uma dependência da Coroa britânica situada no Mar da Irlanda, igualmente reconhecida como centro financeiro offshore, caracterizada por baixa ou nula tributação sobre certos rendimentos e por elevado sigilo bancário, factores que historicamente têm atraído capital de origem africana, incluindo angolana.
São Tomé e Príncipe é um pequeno arquipélago lusófono no Golfo da Guiné, com laços históricos e culturais próximos de Angola. O investimento angolano no país tende a estar associado a sectores como o turismo, a banca e o imobiliário, beneficiando da relação privilegiada entre os dois Estados de língua portuguesa.
Cabo Verde é outro país lusófono, conhecido pela sua estabilidade política e pelo dinamismo do sector turístico, que tem atraído investimento angolano sobretudo em hotelaria, imobiliário e serviços, à boleia da forte ligação cultural e diplomática entre Luanda e Praia.
Para além destes cinco destinos, o BNA agrupa todos os restantes investimentos numa categoria genérica chamada “Outros”, que representa 23% do total do stock de investimento angolano no exterior. Esta categorização opaca impede saber com exatidão em que outros países os angolanos colocaram o seu dinheiro. O dado mais intrigante de 2025 está precisamente aqui: a rubrica “Outros” caiu 733 milhões de dólares face a 2024 — exatamente na altura em que o stock em Portugal subiu 790 milhões de dólares.
A proximidade entre estes dois números sugere uma possível relação entre o recuo de capital nessa categoria não identificada e o reforço do investimento em Portugal, ainda que o relatório do BNA não permita confirmar essa ligação nem explicar as suas causas.
O investimento directo de angolanos no estrangeiro pode assumir diferentes formas: a compra de participações accionistas em empresas estrangeiras, o investimento imobiliário, ou ainda instrumentos de dívida, como a concessão de empréstimos, créditos comerciais ou a aquisição de títulos de dívida emitidos por essas empresas.
Os dados divulgados pelo BNA limitam-se a indicar o valor do stock de investimento angolano no estrangeiro e a sua distribuição percentual pelos cinco países nomeados. O relatório não esclarece, contudo, as razões concretas para o crescimento tão substancial verificado em Portugal — não é possível apurar se resultou de capital genuinamente novo, de uma simples transferência de fundos anteriormente alocados a outras jurisdições, ou de uma combinação dos dois factores.
*Com informações do Expansão, com base no relatório do Banco Nacional de Angola (BNA) sobre a Balança de Pagamentos e Posição do Investimento Internacional de Angola.



