A Africa Finance Corporation (AFC) aprovou um financiamento de 600 milhões de dólares à Greenview Fertiliser Corp., a holding de fertilizantes do Grupo Dangote, num dos maiores compromissos de capital para o sector agroindustrial africano.
O financiamento suporta um plano ambicioso que triplicará a capacidade de produção de ureia na Nigéria, de 3 para 9 milhões de toneladas por ano e adicionará uma nova fábrica de 3 milhões de toneladas na Etiópia.
O acordo consolida o Grupo Dangote como operador da maior plataforma de fertilizantes do mundo, segundo a própria AFC, e representa a continuação de uma relação institucional que já inclui um empréstimo sindicado de 3 mil milhões de dólares para a Refinaria Dangote e um empréstimo sénior de 300 milhões concedido numa fase anterior. Este último foi integralmente reembolsado.
A AFC reinveste agora esse capital — duplicado no sector de fertilizantes, numa ilustração do seu modelo operacional: financiar grandes projectos industriais de alto risco, sair quando os activos atingem maturidade operacional e realocar capital para a próxima vaga de infraestrutura.
O contexto é de urgência. A população africana deverá atingir 2,5 mil milhões de pessoas em 2050, mas o consumo actual de ureia no continente é de apenas 6 milhões de toneladas por ano para 1,5 mil milhões de habitantes.
A título de comparação, a Índia consome cerca de 40 milhões de toneladas e a China cerca de 50 milhões, com populações de dimensão semelhante. A diferença traduz-se em solos subfertilizados e baixa produtividade agrícola, numa região que detém algumas das maiores reservas de gás natural do mundo e cerca de um quarto das terras aráveis não cultivadas do planeta, mas que continua a ser importadora líquida de fertilizantes.
«Como vai a África alimentar 2,5 mil milhões de pessoas até meados do século?», questionou Samaila Zubairu, presidente executivo da AFC.
Para o responsável, reduzir o diferencial de produtividade agrícola é essencial para a soberania económica do continente. Aliko Dangote, presidente do grupo, descreveu o investimento como «a próxima fase de crescimento da Dangote Fertilizers», com impacto directo na segurança alimentar e na base industrial africana.
Para além da dimensão alimentar, o acordo aponta para uma reconfiguração da cadeia de valor do gás natural em África — que migra progressivamente de combustíveis derivados para petroquímicos e insumos agrícolas de maior valor acrescentado.
A expansão nigeriana e etíope deverá ainda criar um corredor de exportação de fertilizantes entre a África Ocidental e Oriental, reduzindo a vulnerabilidade às perturbações nas cadeias de abastecimento globais que as últimas crises tornaram evidentes.
O programa total de investimento ascende a 7 mil milhões de dólares. Os próximos marcos incluem o fecho financeiro do programa completo, o arranque da execução na Etiópia e a velocidade com que a capacidade expandida se traduz em distribuição regional e volumes de exportação.
Para os investidores de longo prazo, a aposta da Dangote nos fertilizantes pode ser o indicador antecipado do próximo grande tema de infraestrutura africana: alimentar um continente maior com os seus próprios recursos.



