Há aeroportos que nos ensinam muito sobre um país. Não pela arquitectura, nem pela imponência das fachadas de vidro. Nem sequer pela quantidade de lojas onde se vendem perfumes caros a quem ainda cheira a saudade. Ensinam-nos, sobretudo, a forma como nos recebem e a forma como nos deixam partir.
Durante anos, havia um pequeno ritual que me intrigava. Entrávamos ou saíamos, passávamos pelos controlos habituais, mas depois éramos conduzidos para uma espécie de sala de desconfiança preventiva. Ali, perguntavam-nos quanto dinheiro levávamos, quanto tínhamos nos cartões, quase como quem suspeita que viajar é uma actividade naturalmente criminosa e que a prosperidade precisa de ser justificada.
Sempre me impressionou a naturalidade com que aceitámos aquilo.
Viajei bastante. Não tanto quanto gostaria, mas o suficiente para acumular aeroportos na memória. E nunca encontrei, com semelhante zelo, essa necessidade de escrutinar os bolsos da alma de quem apenas queria embarcar. Era uma singularidade tão nossa quanto inconveniente.
Por isso, quando recentemente atravessei aquele novo aeroporto que nasceu longe da cidade, confesso que fui surpreendido por algo raro entre nós: a normalidade.
Passei pela imigração.
E continuei.
Assim. Simplesmente continuei.
Sem interrogatórios suplementares. Sem a sensação de que a viagem ainda não tinha sido autorizada. Sem aquela pedagogia da suspeita que tantas vezes confundimos com rigor.
É curioso como a dignidade, por vezes, se manifesta em coisas pequenas. Não chega em discursos. Não vem embrulhada em inaugurações solenes. Surge quando uma pessoa pode atravessar um balcão e seguir o seu caminho, como acontece na esmagadora maioria dos países.
Foi então que percebi que o verdadeiro luxo daquele aeroporto não está nas pistas, nem nos equipamentos, nem nos ecrãs luminosos.
Está na serenidade.
Até no regresso houve novidades. As malas deixaram de passar por aquele desfile colectivo de scanners, incluindo as que já tinham viajado no porão e atravessado meio mundo. Durante anos, aquela procissão de bagagem parecia um monumento burocrático erguido à desconfiança. Havia sempre alguém de colete, vestido de uma autoridade quase teatral, observando os passageiros como se cada mala escondesse uma conspiração internacional.
Alguns jovens funcionários exibiam uma empáfia própria de quem confunde poder com protagonismo.
Não lhes levo a mal.
A juventude também precisa de cometer os seus excessos.
Mas era uma cena que nos diminuía a todos.
E, felizmente, parece pertencer cada vez mais ao passado.
Claro que nem tudo são rosas. A distância continua a ser uma conversa séria. Há momentos em que o aeroporto parece mais perto do futuro do que de Luanda. Ainda custa aceitar que uma viagem comece muito antes da descolagem.
Mas, estranhamente, começo a fazer as pazes com isso.
Talvez porque a calma também tenha valor económico.
Talvez porque chegar sem stress valha mais do que chegar depressa.
Ou talvez porque, pela primeira vez em muitos anos, um aeroporto angolano me tenha dado a sensação de respirar.
E respirar é coisa rara.
Há espaço. Há ordem. Há balcões de check-in suficientes. Cada passageiro encontra o seu lugar sem precisar de disputar território como quem participa numa corrida de sobrevivência.
O contraste torna-se inevitável quando se passa por certos aeroportos europeus onde a confusão já foi elevada à categoria de património cultural. Filas intermináveis. Corredores saturados. Milhares de pessoas a moverem-se simultaneamente sem que ninguém saiba exactamente para onde.
Uma espécie de engarrafamento sem carros.
E é aqui que mora o meu receio.
Porque nós temos um talento histórico para destruir aquilo que funciona através da adoração do que vem de fora.
Oxalá resistamos à tentação.
Oxalá, quando novas companhias chegarem, quando os números crescerem, quando os especialistas começarem a falar de tráfego e capacidade instalada, não sacrifiquemos esta tranquilidade no altar da imitação.
Nem tudo o que existe nos outros é progresso.
Há confusões que não merecem visto de entrada.
Há modelos que devem ficar exactamente onde estão.
No fundo, desejo apenas que este aeroporto conserve a personalidade que começa a revelar.
Que mantenha esta elegância discreta.
Que preserve esta rara capacidade de não nos cansar antes de viajarmos.
Talvez não seja coincidência que carregue o nome de um homem que passou grande parte da sua vida a falar de ponderação, reflexão e destino colectivo.
Talvez exista alguma ironia poética no facto de estar mais próximo da terra das suas origens do que da azáfama da capital.
Por isso, deixo-lhe um pedido afectuoso.
Haja calma, Kota Neto.
Deixe o Humberto entregue às suas correrias, aos seus engarrafamentos humanos e às suas urgências permanentes.
Nem tudo é para imitar.
Às vezes, a maior modernidade de um país consiste em descobrir que pode finalmente comportar-se como ele próprio. E que a verdadeira grandeza não está no ruído do movimento, mas na serenidade de quem sabe exactamente para onde vai.
HAJA CALMA, KOTA NETO, ANTES QUE CHEGUEM OS CONSULTORES
Deixe um comentário



