Em vários momentos da história recente do sector financeiro angolano, o Estado teve de tomar “decisões difíceis e dispendiosas” para preservar a estabilidade financeira, a confiança dos depositantes e a solidez do sistema bancário.
A recordação é da Ministra das Finanças, Vera Daves de Sousa, em testemunho prestado no âmbito do lançamento da 20ª edição do estudo “Banca em Análise”, da Deloitte Angola — a publicação de referência sobre o sistema financeiro nacional, produzida desde 2006.
Segundo a Ministra, esses momentos exigentes tornaram evidente a necessidade de corrigir desequilíbrios acumulados no sector. O esforço do Estado justificou-se, disse, pelo impacto directo que a saúde da banca tem sobre as famílias, as empresas, o investimento, o emprego e a confiança na economia angolana.
Olhando para o percurso mais amplo das últimas duas décadas, Vera Daves considerou que a banca angolana sofreu uma “profunda transformação”. Ao comparar a banca de há vinte anos com a actual, é visível o avanço em domínios como regulação, supervisão, tecnologia, meios de pagamento, exigências de conformidade, governação, relação com os clientes e inclusão financeira.
A Ministra reconheceu, no entanto, que “alguns desafios permanecem por vencer”. Apesar do balanço positivo, sublinhou que a transformação, por si só, não basta. Para Vera Daves, o verdadeiro teste de maturidade do sector financeiro está na sua capacidade de apoiar a economia real, estimular a produção nacional, promover a inclusão financeira e criar oportunidades concretas para os cidadãos.
Crédito e digitalização em alta
Os números da 20ª edição do estudo, apresentados pelo presidente da Deloitte Angola, José Barata, dão sustento às palavras da Ministra. De acordo com a pesquisa, o crédito concedido a clientes cresceu mais de 20% em 2025, com o rácio de transformação a subir para cerca de 36% — um indicador de maior propensão da banca para financiar a economia. Os depósitos, por seu lado, registaram um crescimento de cerca de 9%.
No capítulo da digitalização, o estudo aponta um crescimento de cerca de 50% no número de transacções realizadas através de canais electrónicos em 2025. O Multicaixa Express manteve-se como um dos principais motores desta transformação, enquanto o sistema KWIK, de transferências instantâneas, registou um crescimento exponencial.
José Barata afirmou que os resultados da edição deste ano mostram que a banca angolana entra numa nova fase de evolução, marcada por maior capacidade de adaptação, aposta crescente na digitalização e um papel cada vez mais relevante na inclusão financeira e no apoio ao desenvolvimento económico do país.
Desafios em aberto
O presidente da Deloitte Angola reconheceu, ainda assim, que o peso dos activos do sector bancário no PIB angolano continua inferior ao observado em mercados comparáveis, o que evidencia o potencial de crescimento ainda existente.
O estudo nota também a contínua redução do número de balcões físicos, compensada pelo crescimento expressivo de agentes bancários e de pagamento — um movimento associado ao investimento em novas tecnologias que tornam a operação bancária mais sustentável.
Para a próxima edição, a Deloitte aponta como desafios prioritários o aumento da taxa de bancarização e a maior formalização da economia, factores considerados essenciais para alavancar a diversificação económica do país.
O lançamento da 20ª edição do “Banca em Análise” contou com a presença do secretário de Estado para as Finanças e Tesouro, Ottoniel dos Santos, do ex-ministro da Economia e do Mar de Portugal, António Costa e Silva, do vice-governador do Banco Nacional de Angola, Domingos Pedro, e de representantes das principais instituições financeiras, reguladores, investidores e especialistas do sector.



