As sanções ocidentais à Rússia dificultaram a venda dos diamantes do Catoca, levaram à saída da Alrosa e ao fecho do VTB África. A terceira cimeira Rússia-África decorre em Moscovo a 28 e 29 de Outubro, com a cooperação económica como tema central.
As sanções impostas à Rússia a partir de 2022 tiveram efeitos directos em dois sectores da economia angolana: os diamantes e a banca.
A Alrosa, presente no País desde 1992, vendeu os 41% que detinha na Sociedade Mineira de Catoca à Taadeen, subsidiária do fundo soberano de Omã, num negócio formalizado a 26 de Maio de 2025.
A Endiama mantém os restantes 59%.
Luanda pressionava pela saída da empresa russa desde 2022, quando as sanções atingiram a Alrosa e passaram a dificultar a venda dos diamantes do Catoca.
O ministro dos Recursos Minerais, Petróleo e Gás, Diamantino Azevedo, chegou a classificar a Alrosa como um “parceiro tóxico”. O Governo admitiu que a sua presença afectava a credibilidade de Angola no mercado internacional de diamantes.
O activo em causa é de primeira linha. O Catoca produz cerca de 6,5 milhões de quilates por ano e tem reservas estimadas em 120 milhões de quilates. Entre o início da produção, em 1995, e 2018, a Alrosa recebeu cerca de 464 milhões USD em dividendos. Com a saída, a empresa russa perdeu também a ligação indirecta ao projecto do Luele, considerado o único grande depósito de diamantes descoberto nos últimos 20 anos.
No sector bancário, o VTB África encerrou por decisão dos accionistas, com sérias dificuldades financeiras. Segundo o presidente da Associação Angolana de Bancos, Mário Nascimento, o banco já não participava há algum tempo nas operações interbancárias devido às limitações impostas pelas sanções.
O encerramento não deveria ter impacto no sistema bancário nacional.
Moscovo acolhe a 28 e 29 de Outubro a terceira cimeira Rússia-África, acompanhada pelo Fórum Económico e Humanitário Rússia-África.
Em Setembro, o Ministério dos Negócios Estrangeiros russo indicou que mais de 30 dos 54 países africanos tinham confirmado a participação. O encontro deverá aprovar um plano de acção Rússia-África para 2027–2029, que vai orientar a cooperação no comércio, no investimento e na educação.
Segundo o MNE russo, o comércio da Rússia com o continente ultrapassou os 27 mil milhões USD no ano passado. O presidente do comité organizador, Yuri Ushakov, defendeu que é preciso dar importância especial à componente económica da relação.
O fórum paralelo terá cerca de 40 painéis alinhados com a Agenda 2063 da União Africana. Analistas citados pela imprensa nigeriana apontam a energia nuclear, o petróleo e gás, a mineração e os fertilizantes como áreas com maior potencial. Do lado africano, há interesse em produção local, formação de quadros, infra-estruturas e transformação digital.
O risco de sanções continua a pesar nos negócios. Segundo o boletim Russia-Africa Monitor, sete dos 38 oradores anunciados para o fórum estão sancionados por pelo menos um governo estrangeiro, incluindo o próprio Ushakov. Para empresas e bancos africanos com exposição ao sistema financeiro internacional, a possibilidade de sanções secundárias é um factor a considerar antes de avançar com parcerias.
A cooperação económica entre Angola e a Rússia mantém-se sobretudo na formação. Para o ano lectivo 2025/2026, a Rússia concedeu mais de 400 bolsas de estudo a angolanos, e cerca de seis mil estudantes do País frequentam universidades russas. Do lado institucional, Luanda e Moscovo têm defendido a necessidade de reforçar a Comissão Intergovernamental de Cooperação Económica.
A cimeira decorre na mesma semana em que o GAFI avalia, em Paris, os progressos de Angola para sair da lista cinzenta. Esse processo exige ao sistema financeiro nacional reforço da supervisão e da transparência nas relações com parceiros externos.



