Por: Cristóvão da Silva
Domingo avizinha-se e, com ele, o desfecho de uma contenda que transcende o relvado. Espanha e Argentina disputarão a coroa máxima do futebol mundial, e Portugal, esse pequeno país de bairro à beira-mar, assistirá ao duelo com o desassossego de quem tem dois espinhos cravados na alma.
Há nos portugueses uma vocação atávica para a melancolia e para a desconfiança do êxito alheio. São mestres na arte de torcer contra, virtude que cultivam com o esmero que outros dedicam à poesia. E nunca esta inclinação se revelou tão patente como nestas semanas de Mundial, quando Messi, esse génio de pés ligeiros e alma serena, tem desfilado a sua mestria pelos relvados americanos. Aos 39 anos, o argentino desafia o tempo e a gravidade.
Cada drible é uma sentença, cada passe uma epifania, cada golo uma página de eternidade. E os portugueses, do alto do seu orgulho ferido, assistem a essa exibição de beleza como quem vê o inimigo triunfar.
Ronaldo, o madeirense que se fez mundo, é para eles muito mais do que um futebolista.
É a afirmação de um país pequeno no concerto das nações, a prova de que a periferia pode gerar o centro. Durante anos, alimentaram a ilusão de que o tinham igual ou superior a Messi. Acreditaram que a força, a determinação, a vontade de ferro, valiam tanto como o talento inato, como a graça divina que parece ungir o argentino.
Mas essa ficção confortável ruiu em 2022, quando Messi ergueu o troféu no Qatar e Ronaldo, esse mesmo Ronaldo que tantas glórias lhes deu, partiu para a Arábia sem que nenhum grande da Europa lhe abrisse as portas. O mundo viu, nesse gesto silencioso dos clubes, o que muitos já pressentiam: a hierarquia estava, afinal, definitivamente estabelecida.
O que temem, no fundo, não é que a Argentina vença. É que a vitória argentina seja, ao mesmo tempo, a consagração definitiva de Messi e o epitáfio de qualquer hipótese de revisão histórica. Se o argentino erguer o troféu, a discussão sobre o melhor de sempre ficará, para sempre, encerrada. E os portugueses terão de engolir a ideia de que o seu ídolo, o seu herói, o seu símbolo maior, foi, afinal, o segundo melhor. É um pensamento insuportável para um povo que sempre viveu o futebol como religião e Ronaldo como seu profeta.
Por isso, em cada café, em cada esquina, em cada mesa de restaurante, o desejo é unânime: que a Espanha vença. Não por amor aos vizinhos, mas por ódio de estimação ao argentino.
Mas há neste sentimento uma contradição que os enobrece e os envergonha ao mesmo tempo. Porque, mesmo torcendo contra, não conseguem deixar de admirar.
Messi joga como quem dança com o destino, como quem conversa com os deuses. E há uma beleza nisso que os transcende, que os arrebata, que os faz, contra a sua vontade, render vassalagem. É essa a tragédia do adepto português: amar o futebol e temer o seu maior expoente; reconhecer a genialidade e desejar a sua queda.
Domingo, quando o apito soar, o coração luso estará dividido entre a razão que quer a derrota de Messi e a alma que reconhece, em cada toque seu, a poesia em movimento. E, no fim, seja qual for o resultado, ficará a sensação de que assistiram a algo grandioso, mesmo que contra a sua vontade.
Porque o futebol é a arte de os fazer sofrer com a beleza alheia. E Portugal, esse velho país de navegadores e poetas, saberá transformar a dor da vitória alheia em matéria-prima para a crónica, para a saudade e para a eterna conversa de café.



