O fundador do grupo proprietário da Cuca, da Nocal, da Eka e da N’Gola completa cem anos a 17 de Outubro. Os herdeiros e a direcção disputam o controlo do império, mas a Castel Angola assegura que nada muda no País.
Pierre Castel nasceu a 17 de Outubro de 1926 em Berson, nos arredores de Bordéus, filho de imigrantes espanhóis. Daqui a doze dias completa cem anos.
Em 1949 fundou com os irmãos a Castel Frères, uma pequena casa de comércio de vinhos.
O negócio estendeu-se à cerveja e aos refrigerantes e ganhou escala no continente africano. O grupo facturou 6,9 mil milhões de euros em 2025 e está presente em mais de 20 países africanos, com mais de 80 unidades de produção.
A porta de entrada em África foi o Gabão. A Sobraga, criada em Libreville em 1966, foi a primeira cervejeira do grupo no continente e produz a Régab, a cerveja emblemática do país. Em 1990, a compra da BGI (Brasseries et Glacières Internationales) deu à Castel, de uma só vez, as cervejeiras dos Camarões, do Senegal, da Costa do Marfim e do Burkina Faso, entre outras.
Na República Democrática do Congo, controla a Bracongo, em Kinshasa, e a Brasimba, em Lubumbashi. No Congo-Brazzaville, opera através da Bralico, com fábricas em Pointe-Noire e Oyo.
Em Marrocos, comprou em 2003 as Brasseries du Maroc, hoje Société des Boissons du Maroc, de que detém 69,3%, e onde produz a Flag Spéciale, a cerveja mais vendida do país.
Os Camarões são hoje a jóia da coroa. A SABC facturou 483,2 mil milhões de FCFA, cerca de 737 milhões de euros, em 2025, a maior receita entre as filiais africanas do grupo. Com a compra da Guinness Cameroon à Diageo, em 2022, por 389 milhões de libras, passou a controlar mais de 89% do mercado cervejeiro camaronês.
Na Costa do Marfim, a Solibra, cotada na bolsa regional de Abidjan e detida em 71,62% pela BGI, facturou 281 mil milhões de FCFA, cerca de 428 milhões de euros, no mesmo ano.
Em Angola, a presença começou em 1994, com a reabilitação e a gestão da fábrica da Cuca. Em 2005, no quadro da privatização, a Castel ficou com 75% do capital da cervejeira.
Seguiram-se a Nocal e a Eka e, em 2011, a N’Gola. Hoje o grupo controla cerca de 80% do mercado nacional da cerveja, com as marcas Cuca, Nocal, Eka, N’Gola, Doppel e 33 Export.
A Castel Angola apresenta-se como a única empresa do sector com unidades fabris em todo o território nacional. Emprega directamente cerca de 8.000 trabalhadores e gera centenas de milhares de postos de trabalho indirectos ao longo da sua rede de comercialização.
Nos refrigerantes, mudou de parceiro em 2022. Abandonou o engarrafamento da Coca-Cola e passou a produzir as marcas da PepsiCo: Pepsi, 7UP e Mirinda.
O Estado, que detinha participações residuais nas cervejeiras, acabou por vendê-las ao grupo. As posições na Cuca (1%), na Eka (4%) e na N’Gola (1%) renderam aos cofres públicos 1.154 milhões Kz.
A proximidade ao poder político não é segredo. A 28 de Maio de 2018, durante a visita oficial a França, o Presidente da República, João Lourenço, reuniu-se em privado com Pierre Castel, em Paris.
O empresário reside actualmente em Portugal, onde aplicou cerca de 420 milhões de euros em imobiliário de escritórios, incluindo o Campus de Justiça, no Parque das Nações, em Lisboa.
O percurso tem, porém, zonas de sombra. Na Suíça, onde viveu durante décadas, Pierre Castel foi condenado a pagar mais de 350 milhões de euros ao fisco de Genebra. O seu advogado garante que a situação está regularizada.
O centenário chega também num momento delicado para o império. A sucessão opõe Romy Castel, filha do fundador, a Grégory Clerc, antigo advogado fiscalista de Pierre Castel e primeiro director-geral alheio à família, em funções desde 2023.
A guerra trava-se nos tribunais penais. Em Genebra, Romy Castel apresentou queixa contra Clerc por gestão danosa e branqueamento de capitais, por factos do tempo em que este era o seu advogado fiscalista pessoal.
No Luxemburgo, Alain Castel, sobrinho do fundador, avançou com uma queixa por abuso de bens sociais, relacionada com a remuneração do director-geral, que o Ministério Público local está a analisar.
A herdeira contesta ainda uma indemnização de saída que estima em 36 milhões de euros. Clerc contra-atacou. A seu pedido, Romy Castel foi constituída arguida em Genebra por falsificação e uso de documento falso, por alegadamente ter usado sem autorização a assinatura do pai numa procuração. Ela nega as acusações.
O braço-de-ferro decide-se na IBBM, sociedade sediada em Singapura que gere o fundo através do qual a família detém o grupo. Em Fevereiro, em assembleia de accionistas, Romy Castel e os seus aliados afastaram Clerc e Pierre Baer, presidente executivo da IBBM, do conselho de administração. A 2 de Outubro, o Tribunal Superior de Singapura confirmou a validade dessa deliberação.
Quem são os novos administradores
O novo conselho da IBBM deverá integrar Romy Castel e três administradores independentes, todos banqueiros com longa carreira na Ásia.
Chua Pin foi dirigente do banco francês Natixis e do neerlandês ABN Amro na região. François Wertheimer é sócio da Capital Asia Partners e foi responsável pela banca de investimento do BNP Paribas no Sudeste Asiático.
Philippe Damas é administrador do TMB Thanachart Bank e da Armstrong Asset Management. As nomeações dependem ainda da aprovação da autoridade monetária de Singapura.
Romy Castel promete uma gestão mais transparente e fiel à visão do pai.
A direcção desvaloriza o alcance da sentença. Em comunicado enviado à Líder Magazine, a Castel Angola assegura que a decisão do tribunal “não produz qualquer alteração” na governação do grupo nem no normal funcionamento das operações em Angola.
A empresa sublinha que a IBBM não é a sociedade-mãe do Grupo Castel e não intervém na gestão corrente. O grupo continua a ser detido, em última instância, por trusts, segundo o modelo definido pelo fundador, e cabe aos trustees nomear os administradores da Cassiopée, a holding de topo.
Os conselhos de administração da Cassiopée e da DF Holding, a holding operacional, reafirmaram a plena confiança em Clerc.
Nem toda a família está do lado da herdeira. Os outros quatro ramos demarcaram-se das suas iniciativas. Os trustees, por seu lado, avançaram com a substituição da IBBM por uma nova entidade gestora, processo que Romy Castel procura travar nos tribunais.
Aos cem anos, Pierre Castel vê o império que construiu dividido entre a família e a direcção. Para os consumidores e os trabalhadores angolanos, a mensagem da Castel Angola é, para já, de continuidade.



