Durante décadas, poucos angolanos terão ouvido falar de Romy Castel. Filha única de Pierre Castel, o fundador do grupo francês que está em Angola desde 1994 e detém a Cuca, a Nocal, a EKA e a N’gola, nasceu em 1974 e tem 52 anos, segundo o site francês Vinabox.
Num perfil do grupo publicado pela Jeune Afrique há mais de uma década, já se dizia que preferira afastar-se da sombra do pai e não estava envolvida na gestão da empresa.
Reside na Suíça. Segundo o portal suíço Thomasvino, que cita a revista Bilan, adquiriu uma casa em Genebra em 2016. A sua ligação empresarial mais visível era ao vinho: é sócia da SCEA Château Cavalier, propriedade da família na Provença, e foi administradora da Castel Vins até 26 de Junho de 2026, quando foi destituída do cargo juntamente com o primo, Alain Castel.
Foi com o envelhecimento do pai, que completa 100 anos a 17 de Outubro, que Romy Castel saiu da discrição. Aliada a Alain Castel, um dos responsáveis máximos da Castel Vins, rompeu publicamente com Gregory Clerc, o antigo consultor fiscal suíço que dirige o grupo desde Outubro de 2023. Segundo o jornal Mondafrique, os dois herdeiros denunciaram uma ruptura profunda de confiança e uma concentração inédita de poderes no director-geral, que acumularia mais de 31 mandatos.
Acusaram-no também de privilegiar uma lógica financeira em detrimento do desenvolvimento industrial do grupo.
O confronto tem tido custos pessoais. Segundo o diário suíço Le Temps, Romy Castel foi formalmente acusada em Genebra de falsificação de documento, por alegadamente ter forjado uma procuração em nome do pai. Ela contesta a acusação. Em resposta, apresentou queixa contra Clerc por gestão danosa e branqueamento de capitais.
Também não reúne a família inteira. Num comunicado de 28 de Agosto, citado pelo Le Temps, os outros quatro ramos da família Castel distanciaram-se dela, desaprovaram os processos judiciais e classificaram os seus promotores como uma pequena minoria. O campo de Romy Castel contestou o documento.
No terreno judicial, Romy Castel tem somado vitórias, e hoje ganhou a causa principal. Com Gilles Martignac e Guy de Clercq, detém 72,33% da IBBM, holding singapuriana que gere o trust no topo do grupo.
A Alta Corte de Singapura deu-lhe razão e confirmou a destituição de Gregory Clerc do conselho dessa sociedade, como noticiou o jornal luxemburguês Paperjam. Romy Castel foi indicada para administradora, nomeação ainda sujeita à aprovação do regulador singapuriano.
Está em jogo um grupo com mais de 40 mil trabalhadores e um volume de negócios estimado em 6,5 mil milhões de euros em 2024, segundo o Le Temps. A gestão não contesta a decisão, mas desvaloriza o seu alcance: insiste que a IBBM não controla a operação e que Clerc continua ao leme. Em Luanda, a Castel Angola garantiu hoje, em comunicado enviado à Líder Magazine, que as suas operações no País prosseguem sem qualquer alteração.
Os sócios angolanos do império Castel
Em Angola, o império que Romy Castel disputa estende-se de Cabinda ao Huambo. Segundo o site do grupo, em Luanda funcionam a Cuca, a CCBL e a ECNN.
Em Bom Jesus, hoje província de Icolo e Bengo, está a Cobeje, inaugurada em 2008. Na Catumbela, em Benguela, funciona a Soba desde 2004. Em Cabinda fica a Cerbab, também de 2008.
No Lubango produz-se a N’gola, no Dondo, no Cuanza Norte, a EKA, e no Huambo a Nocebo, cuja gestão o grupo assumiu em 2009. Completam o universo a vidreira Vidrul e uma empresa agrícola.
A estrutura accionista é menos visível, e mais sensível. O grupo francês opera no País através da Brasseries Internationales Holding (BIH).
Segundo uma investigação do jornalista Rafael Marques de Morais, publicada no Maka Angola em 2012, a BIH detém 75% da Soba (Sociedade de Bebidas de Angola).
Os restantes 25% pertencem à GEFI, a holding financeira do MPLA.



