O dono da Cuca, da Nocal e da EKA vive uma crise de poder sem precedentes. A Alta Corte de Singapura validou o afastamento do director-geral do grupo do conselho de uma das holdings que controlam o império. Em Luanda, a Castel Angola garante que nada muda nas operações no País.
A guerra pelo controlo do maior grupo de bebidas a operar em Angola conheceu hoje um novo capítulo, longe de Luanda. Segundo um comunicado de Romy Castel, filha do fundador, citado pelo jornal luxemburguês Paperjam, a Alta Corte de Singapura confirmou as resoluções aprovadas na assembleia geral da Investment Beverage Business Management (IBBM) de 2 de Fevereiro de 2026. Fica assim validada a destituição de Gregory Clerc e de Pierre Baer do conselho de administração da sociedade.
A reacção em Angola não se fez esperar. Num comunicado de imprensa enviado hoje à Líder Magazine, a Castel Angola sustenta que a decisão não produz qualquer alteração na governação operacional do grupo nem no normal funcionamento das suas operações no País.
A subsidiária angolana sublinha que a estrutura de controlo se mantém inalterada e que o grupo continua a ser detido, em última instância, através de trusts, conforme o modelo definido pelo fundador. Neste quadro, acrescenta, o poder de nomear os administradores da Cassiopée, a holding de topo, e de supervisionar a governação do grupo pertence aos trustees, e não à IBBM.
Para a empresa, isto significa “a continuidade integral da actividade e da gestão das suas operações”. A Castel Angola garante manter os compromissos com colaboradores, clientes, consumidores, fornecedores, distribuidores e parceiros.
O desfecho interessa directamente ao mercado nacional. O grupo francês está em Angola desde 1994, quando reabilitou e passou a gerir a fábrica da Cuca, e é hoje dono de marcas como a Cuca, a Nocal, a EKA, a N’gola e a Doppel. No site da Castel Angola, o grupo indica contar com 13 unidades fabris no País: 12 de bebidas, uma de vidro e uma empresa agrícola.
Diz ainda empregar directamente cerca de 5.000 trabalhadores. Este ano, segundo a revista Marcas em Acção, a Castel Angola passou também a produzir localmente a Heineken, ao abrigo de um acordo de licenciamento.
Em Singapura, a filha do fundador não perdeu tempo a ocupar o terreno.
O seu comunicado anuncia a nomeação de Chua Pin, François Wertheimer e Philippe Damas como administradores da IBBM, bem como a da própria Romy Castel, sujeita à aprovação da Autoridade Monetária de Singapura. Para a herdeira, a decisão assinala “o regresso a uma governação transparente”. O texto integral da sentença não estava, contudo, disponível para consulta à hora do fecho.
A importância da IBBM explica a dureza do combate. A sociedade gere o IBBF, um trust privado de direito singapuriano cuja carteira está avaliada em cerca de 8 mil milhões de dólares de Singapura. De acordo com a publicação especializada Larvi, Romy Castel, Gilles Martignac e Guy de Clercq detêm em conjunto 72,33% do capital da IBBM.
O afastamento de Clerc arrastava-se desde o início do ano. Na assembleia de 2 de Fevereiro, Pierre Baer, que presidia aos trabalhos, recusou reconhecer o direito de voto de Romy Castel, abrindo a disputa judicial. A 9 de Fevereiro, os accionistas maioritários obtiveram injunções que impediam provisoriamente Clerc e Baer de exercer funções de administradores, e a 30 de Julho o tribunal rejeitou o recurso de Clerc contra essa suspensão.
A gestão do grupo fecha fileiras em torno do director-geral. Em comunicado divulgado através da GlobeNewswire, os conselhos de administração da Cassiopée e da DF Holding reiteram plena confiança em Clerc e consideram essencial que possa continuar a exercer as suas responsabilidades.
O argumento central é que “a IBBM não é a sociedade-mãe do Grupo Castel”. Os trustees do IBBF terão já escolhido um novo gestor para substituir a IBBM, e Romy Castel recorreu à justiça para suspender esse processo.
Clerc mantém, para já, o leme da DF Holding, com sede no Luxemburgo. É desta sociedade que dependem as três grandes divisões do grupo: a Castel Vins, a agro-industrial Somdia e a Castel Afrique.
A batalha está longe de terminada. Segundo a revista suíça Bilan, Romy Castel foi acusada em Genebra de falsificação, com Clerc a imputar-lhe a usurpação da assinatura do pai numa procuração, o que ela nega.
Em contrapartida, a herdeira apresentou queixa em Genebra por gestão danosa e branqueamento, e Alain Castel fê-lo no Luxemburgo por abuso de bens sociais, ambas contra Clerc.
Para Angola, onde a Castel domina o mercado da cerveja, as garantias de continuidade dadas hoje pela subsidiária são um sinal de tranquilidade. Mas enquanto a guerra pelo topo do império não tiver um vencedor claro, investimentos, estratégia e parcerias continuarão sob a sombra da incerteza.



