O processo de privatização da Aldeia Nova, S.A. teve um desfecho que já era antecipado por analistas do sector: depois de o concurso público internacional lançado para o efeito não ter produzido resultados, foi o próprio parceiro privado da empresa a ficar com o controlo total do capital.
De acordo com informação avançada pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAPE) ao jornal Expansão, a Diembo, Lda. — braço do Grupo Mitrelli que já detinha 41% da Aldeia Nova — recorreu ao direito de preferência estabelecido nas regras do concurso para comprar a fatia de 59% que ainda pertencia ao Estado.
O processo, que decorreu entre o final de 2025 e este ano, está agora numa fase de formalização, com os respectivos trâmites jurídicos e administrativos ainda por concluir.
A privatização desta participação tinha sido formalmente autorizada em Julho de 2025, através de despacho presidencial, no âmbito do Programa de Privatizações (PROPRIV), tendo o Executivo constituído uma comissão negocial com representantes das áreas das Finanças e da Agricultura. Até à assinatura definitiva do negócio, os 59% em causa pertenciam a três entidades públicas: o IGAPE (23%), a Gesterra (21%) e o Instituto de Desenvolvimento Agrário (15%).
A Aldeia Nova é, na prática, a segunda vida de um projecto mais antigo: a empresa nasceu em 2011 para dar continuidade a um investimento de 70 milhões de dólares inaugurado em 2005, ainda sob a presidência de José Eduardo dos Santos, que previa a integração de 600 famílias de ex-militares em actividades agro-industriais no Waco Cungo, no Cuanza Sul.
Desde 2012 que a gestão operacional está entregue à Diembo, ligada à Vital Capital Fund e ao Grupo Mitrelli, liderado pelo empresário israelita Haim Taib — um dos maiores credores privados do Estado angolano e um dos principais financiadores de programas públicos no país, relação que se reforçou a partir de 2017.
A saída do Estado do capital surge depois de anos de resultados negativos na empresa. Segundo dados anteriormente publicados pelo IGAPE, a Aldeia Nova acumulou prejuízos superiores a 6,7 mil milhões de kwanzas entre 2019 e 2022, com a administração a alertar, em relatórios de gestão, para uma situação financeira crítica que poderia culminar em falência caso não fossem tomadas medidas correctivas.
Parte dos resultados negativos foi atribuída a dívidas fiscais junto da Administração Geral Tributária e a custos de serviços do próprio Grupo Mitrelli, relativos a exercícios anteriores a 2017.



