A escassez de combustível que atinge a Rússia está a reconfigurar, semana após semana, o tabuleiro energético mundial, e Angola tem tudo para ganhar um lugar de destaque nesse novo equilíbrio.
Os ataques ucranianos às refinarias russas provocaram uma crise sem precedentes recentes: racionamento, filas intermináveis nas bombas de gasolina e subidas recordes de preços, do Báltico ao Pacífico, obrigaram Moscovo a fazer aquilo que raramente fez em décadas — bater à porta de fornecedores estrangeiros.
A Índia já enviou à Rússia cerca de 60 mil toneladas de gasolina, segundo apurou a Reuters, e há indícios de mais dois navios-tanque a caminho.
Moscovo terá ainda planos para importar, todos os meses, até 400 mil toneladas de combustível de vários países, contando com a Bielorrússia como parceiro habitual.
Para uma potência que se orgulha de ser autossuficiente em refinação, a dependência de terceiros é, em si mesma, uma notícia.
É neste contexto que a capacidade de refino africana ganha um novo valor estratégico. A Nigéria, com a refinaria Dangote a caminho de 1,4 milhões de barris diários — mais do triplo da maior refinaria russa, em Omsk —, tornou-se já o rosto mais visível dessa mudança, com exportações recordes de combustível de aviação para mercados como o Reino Unido e a Holanda.
Mas Angola, a par da Argélia, da Líbia e do Egipto, não fica de fora desta equação. Ao contrário de Argel, que mantém com Moscovo uma relação diplomática e energética de longa data, Luanda nunca foi fornecedora tradicional de crude à Rússia, e o seu petróleo continua ligado, sobretudo, à procura chinesa.
Ainda assim, num mercado mundial que procura alternativas seguras depois das tensões entre os Estados Unidos e o Irão e das perturbações no Estreito de Ormuz, a refinaria de Luanda e o sector petrolífero angolano dificilmente passarão despercebidos aos compradores internacionais.
Convém, no entanto, não antecipar demasiado optimismo.
Qualquer fornecimento africano à Rússia — angolano ou de outra origem — teria de enfrentar um conjunto de obstáculos nada trivial: sanções internacionais, custos de transporte elevados, exigências técnicas dos produtos, canais de pagamento complexos, cobertura de seguros e aprovações governamentais que não se resolvem da noite para o dia.
A oportunidade existe; a sua concretização é outra história, que só os próximos meses poderão contar.



