A Unitel estreou-se na Bolsa de Dívida e Valores de Angola (Bodiva) com uma oferta pública de venda de acções que decorreu entre 6 e 24 de Julho.
O Estado colocou à venda 7,5 milhões de acções, representando 15 por cento do capital da empresa, repartidas entre o público em geral (13 por cento) e os próprios trabalhadores da Unitel (2 por cento).
A procura disparou 120,72 por cento acima da oferta disponível, elevando o preço final ao limite máximo da faixa indicativa: 40.040 kwanzas por acção, cerca de 44 dólares norte-americanos. Foram apresentados mais de 17.500 pedidos de subscrição, dos quais 16.571 foram satisfeitos, dando origem, da noite para o dia, a 11.264 novos accionistas.
O sucesso da operação reflecte o peso que a Unitel ocupa há anos na economia angolana. Com uma quota de mercado de 76 por cento e um quase monopólio prolongado, a operadora sustenta a infra-estrutura digital do país: os terminais de pagamento móvel dependem dos seus chips, a maioria dos pagamentos móveis assenta na sua rede, e sectores inteiros, particularmente o dos serviços não podem prescindir dela.
Em 2012, por exemplo, os seus lucros representaram 95,1 por cento dos lucros combinados dos 22 bancos privados angolanos, um número que ilustra bem essa dimensão. É este estatuto que explica por que os investidores encararam a oferta menos como uma aposta de risco e mais como uma rara oportunidade de investir numa infra-estrutura essencial à vida dos angolanos.
A estreia em bolsa ocorre, no entanto, num contexto de incerteza jurídica sobre quem detém verdadeiramente o capital da empresa.
Em Outubro de 2022, o Estado confiscou, através de dois decretos presidenciais, a participação de 50 por cento na Unitel que era detida pela Geni e pela Vidatel, sociedades pertencentes, respectivamente, ao general Leopoldino “Dino” Nascimento e a Isabel dos Santos.
O Governo justificou a medida com o facto de os processos judiciais movidos contra ambos os accionistas estarem a prejudicar as operações da empresa, tanto no mercado interno como no internacional.
Essa justificação é, contudo, contestada pelo analista jurídico Rui Verde, em artigo publicado no sítio Maka Angola. Segundo o autor, nenhum dos processos judiciais em causa atingiu a fase prevista nos decretos, nem resultou em condenação que fundamente, nos termos habituais, a nacionalização de bens, o que poderá, no futuro, abrir caminho a que um tribunal venha a revogar os decretos.
A Unitel mantém-se, assim, no centro de processos judiciais relacionados com a titularidade do seu capital, uma questão que os novos accionistas da oferta pública herdam por arrasto.
Para além da incerteza jurídica, a operadora enfrenta também dificuldades operacionais crescentes.
Testes de velocidade da nPerf, realizados entre Abril de 2025 e Março de 2026, mostram que a Africell ultrapassou a Unitel em desempenho de rede móvel pela primeira vez. Nas últimas semanas registaram-se ainda duas interrupções de serviço em Luanda, além de um aumento das reclamações relacionadas com a limitação de largura de banda em planos de “uso justo”, sinais de que o investimento na rede não tem acompanhado o crescimento do número de assinantes.
Esta situação tem, aliás, raízes anteriores à nacionalização. Até Janeiro de 2020, a Unitel contava entre os seus accionistas com a Portugal Telecom, que detinha 25 por cento do capital desde a fundação da empresa.
Nesse ano, a participação foi adquirida pela Sonangol por cerca de mil milhões de euros, o Estado prescindiu, assim, do único accionista com verdadeira experiência na gestão de redes de telecomunicações, dois anos antes dos decretos de confisco.
Com esta estreia, a Bodiva passa a contar com seis empresas cotadas: o Banco Angolano de Investimentos (BAI), o Banco de Fomento Angola (BFA), o Banco Caixa Geral Angola (BCGA), a Empresa Nacional de Seguros de Angola (ENSA), a própria BODIVA — Bolsa de Dívida e Valores de Angola — e, agora, a Unitel.



