O banco britânico Standard Chartered está a liderar um pacote financeiro na ordem dos 538 milhões de euros, destinado a suportar a segunda fase do Sistema de Água Quilonga Grande — um dos maiores investimentos em curso no sector hídrico angolano, que deverá beneficiar directamente cerca de cinco milhões de habitantes da Grande Luanda. Segundo informação avançada pela publicação especializada Global Trade Review, o processo de financiamento ainda não foi dado como concluído.
De acordo com a mesma fonte, o Standard Chartered assume as funções de coordenador da agência de crédito à exportação, banco estruturador, único bookrunner e organizador mandatado principal. A transacção conta ainda com o envolvimento da Bpifrance, agência francesa de crédito à exportação, e da Sfil, instituição financeira pública francesa vocacionada para o refinanciamento de operações de crédito à exportação.
O empreendimento está a ser promovido pela Empresa Pública de Águas (EPAL), sob tutela do Ministério da Energia e Águas. A infra-estrutura vai captar água do rio Kwanza, que será tratada numa estação concebida para produzir 518 mil metros cúbicos de água tratada por dia — volume que representa um reforço substancial à capacidade de abastecimento da região metropolitana. Segundo dados do próprio Ministério, o sistema Quilonga Grande, na sua concepção integral, contempla 107 quilómetros de condutas, sete centros de distribuição e mais de 350 mil novas ligações domiciliárias.
As obras encontram-se, actualmente, com um grau de execução estimado em 55%, prevendo-se que o fornecimento de água à população se inicie de forma faseada ainda no decurso do último trimestre de 2026.
Para o Executivo angolano, este é um dossier de particular relevância. O abastecimento de água juntou-se, nos últimos anos, a um conjunto de infra-estruturas sob forte pressão — habitação, transportes, energia eléctrica e saneamento básico — num contexto de crescimento acelerado e desordenado da capital e do seu perímetro metropolitano, que inclui os municípios de Icolo e Bengo.
A estrutura da operação ilustra bem a forma como os grandes projectos de infra-estrutura pública em África continuam dependentes de mecanismos de crédito à exportação combinados com financiamento comercial.
A Bpifrance assegura cobertura de seguro para mitigar o risco de crédito dos financiadores, enquanto a Sfil intervém através do seu mecanismo de refinanciamento, adquirindo parte dos compromissos inicialmente assumidos pelos credores.
Em contrapartida, o acordo encontra-se vinculado à participação de fornecedores franceses na execução do projecto. Este modelo não é inédito no país: a Bpifrance já tinha apoiado anteriormente outros projectos do sector hídrico angolano, ao passo que o Standard Chartered tem um historial de intermediação em infra-estruturas nacionais, incluindo o aeroporto de Cabinda e obras de defesa contra cheias e de melhoria do sistema de abastecimento de água em Benguela.
Documentação governamental anterior já havia autorizado um financiamento de 538,7 milhões de euros para a Quilonga 2, cobrindo 85% do valor do contrato comercial, bem como a totalidade do custo do prémio de seguro de crédito à exportação. Foi ainda autorizado, em separado, um acordo de financiamento adicional de 67,2 milhões de euros, destinado a custos conexos ao projecto.
A execução da obra está a cargo de um consórcio liderado pela empresa portuguesa de engenharia e construção Casais Engenharia e Construção, prevendo-se, segundo a Global Trade Review, a criação de mais de 1.500 postos de trabalho directos na fase de construção — ainda que o impacto económico a prazo dependa, sobretudo, dos ganhos de produtividade associados a um melhor acesso à água.
O financiamento de infra-estruturas hídricas de grande dimensão levanta uma questão recorrente no continente africano: este tipo de investimento gera, reconhecidamente, amplos benefícios económicos e sociais, mas raramente oferece o retorno comercial imediato capaz de atrair, isoladamente, capital privado.
Estações de tratamento, adutoras, reservatórios e redes de distribuição exigem investimentos avultados à partida e horizontes operacionais longos, obrigando os Estados a conciliar o custo da infra-estrutura com a acessibilidade tarifária para as populações. Neste sentido, o Quilonga Grande situa-se na intersecção entre finanças públicas, política de desenvolvimento e resiliência climática.
Um abastecimento de água fiável não é apenas uma questão de saúde pública — é também condição essencial para a produção industrial, a construção civil, o processamento alimentar, a saúde, a educação e, em termos mais latos, para toda a actividade económica urbana.
Para Angola, este cálculo assume particular acuidade num momento em que o país prossegue o esforço de diversificação de uma economia historicamente dependente das receitas petrolíferas.
Uma infra-estrutura hídrica robusta pode melhorar significativamente o ambiente de negócios e permitir uma expansão urbana e industrial mais previsível — desde que as obras sejam concluídas dentro dos prazos, operadas com eficiência, e ligadas a uma rede de distribuição capaz de chegar, de facto, aos lares e às empresas.
Ampliar a capacidade de tratamento não resolve, porém, por si só, os problemas estruturais da gestão da água em Angola. As perdas na rede de distribuição, a manutenção das infra-estruturas, os sistemas de facturação, a questão da acessibilidade tarifária e a sustentabilidade financeira das próprias concessionárias serão factores decisivos para determinar em que medida a nova capacidade de tratamento se traduzirá, efectivamente, em água nas torneiras dos angolanos.
Há ainda uma dimensão ambiental que não pode ser ignorada: o projecto depende da captação de água do rio Kwanza, o que torna a sustentabilidade do próprio recurso hídrico um factor determinante para o desempenho do sistema a longo prazo.
Num contexto continental de crescente variabilidade climática — que já pressiona o abastecimento de água em metrópoles como Lagos, Nairobi, Kinshasa, Acra ou Dar-es-Salaam —, os grandes sistemas urbanos de água terão de ser pensados para além da mera engenharia, tendo em conta a fiabilidade das bacias hidrográficas de origem.
Para os governos africanos em geral, acordos deste tipo — combinando crédito à exportação, seguro de risco e banca comercial — podem alargar significativamente o leque de financiamento disponível para infra-estruturas, especialmente onde os mercados de capitais domésticos não conseguem, por si só, assegurar financiamento suficiente a longo prazo.
Ainda assim, este modelo não deixa de suscitar interrogações legítimas sobre processos de contratação pública, participação económica nacional e a real capacidade destes projectos em gerar competência técnica e industrial local, em vez de se limitarem a importar infra-estrutura e know-how estrangeiro.
O acordo dos 538 milhões de euros não constitui, por si só, prova de que Angola resolveu o seu problema de abastecimento de água urbano. O financiamento carece ainda de conclusão formal, a construção precisa de ser terminada, e a infra-estrutura resultante terá de demonstrar capacidade operacional sustentada. Mas a estrutura desta operação ilustra bem o esforço conjunto entre mutuários públicos, banca comercial, agências de crédito à exportação e empreiteiras internacionais para colmatar as avultadas necessidades de financiamento de infra-estruturas essenciais no continente.
A medida final do sucesso do Quilonga Grande não será, por isso, o montante do pacote financeiro mobilizado, mas sim a sua capacidade de gerar uma melhoria duradoura na segurança hídrica das famílias, empresas e instituições que dependem do sistema de abastecimento de água da Grande Luanda.



