A Sonangol admite ter reduzida probabilidade de recuperar empréstimos superiores a 390 mil milhões de kwanzas concedidos a grupos empresariais privados no âmbito da Lei de Fomento Empresarial.
A revelação consta do mais recente relatório da petrolífera estatal angolana, que reconhece abertamente o risco associado a estes financiamentos — numa empresa que, segundo a auditora EY, apresenta sinais generalizados de imparidade nos seus activos financeiros, com investimentos em subsidiárias e outros activos financeiros sem provas suficientes de recuperabilidade futura. 
Segundo avança o Valor Económico, os grupos em causa são a Force Petroleum Angola e a Genius — empresa criada pelo general João de Matos, ex-chefe de Estado-Maior-General das Forças Armadas Angolanas  — ligados respectivamente a Desidério Costa, antigo ministro dos Petróleos.
De acordo com a fonte, os empréstimos foram cedidos no quadro de um mecanismo criado para estimular o investimento privado nacional, mas cujos resultados práticos levantam sérias interrogações sobre a gestão do instrumento.
Não é a primeira vez que a Sonangol se vê envolvida em financiamentos a privados com retornos duvidosos. A Procuradoria-Geral da República já havia identificado diversas empresas privadas que beneficiaram de financiamento de fundos públicos sem reembolso voluntário, tendo o Estado angolano, através da Sonangol, emprestado à Fábrica de Cimento do Kwanza-Sul cerca de 820 milhões de dólares, sem que até à data tivessem sido feitas quaisquer devoluções. 
O quadro financeiro da petrolífera é ainda agravado pela sua relação estruturalmente desequilibrada com o Estado. O valor que o Estado deve à Sonangol rondava, em Dezembro de 2024, 7,5 mil milhões de dólares, colocando a empresa como segundo maior credor individual do país, atrás apenas do Banco de Desenvolvimento da China. 
A situação é agravada por uma omissão relevante no mesmo relatório: a Sonangol não faz qualquer referência a um novo investimento na Amufert, projecto agroindustrial liderado pelo Grupo OPAIA. A Sonangol e o Grupo OPAIA uniram-se na Amufert, empresa que visa promover a produção de fertilizantes em Angola, no Soyo, com a petrolífera a garantir 20% do financiamento necessário para o empreendimento avaliado em dois mil milhões de dólares. 
Em Novembro de 2024, o Grupo OPAIA, através da Amufert, assinou um contrato de construção no valor de 1,4 mil milhões de dólares, com arranque da produção previsto para 2027.
 A ausência desta menção no relatório alimenta dúvidas sobre a transparência e integralidade da informação prestada pela petrolífera.
O caso coloca em evidência os riscos de um padrão que analistas descrevem como estrutural.



