O investimento bilionário nos projectos de oleodutos do Golfo Pérsico está a reconfigurar as rotas do comércio mundial de petróleo, com pelo menos sete grandes projectos em curso ou planeados para redireccionar as exportações de crude através do Mar Vermelho, do Golfo de Omã e do Mediterrâneo.
Os produtores petrolíferos do Golfo Pérsico têm vindo a acelerar os planos para contornar o Estreito de Ormuz, devido às tensões regionais, sobretudo com o Irão. Estas alternativas poderão transformar o litoral africano do Mar Vermelho num ponto central do comércio energético mundial — segundo estimativas do Goldman Sachs, até 2028 até 60% das exportações petrolíferas do Golfo poderão evitar o Estreito de Ormuz, recorrendo a estas novas rotas.
A infra-estrutura planeada poderá aumentar de forma significativa a importância estratégica do Mar Vermelho, colocando os países africanos que fazem fronteira com esta via marítima ao longo de um corredor energético mundial cada vez mais vital.
A Arábia Saudita já opera o seu próprio oleoduto Leste-Oeste, que transporta crude do centro de processamento de Abqaiq até Yanbu, no Mar Vermelho.
Construído durante a guerra Irão-Iraque, na década de oitenta, o oleoduto tornou-se uma alternativa crucial à medida que as tensões regionais se intensificam.
Os Emirados Árabes Unidos estão igualmente a expandir um oleoduto de três mil milhões de dólares, que liga os seus campos petrolíferos a Fujairah, no Golfo de Omã, com conclusão prevista para meados de 2027.
O Iraque procura, em simultâneo, novas rotas de exportação através da Turquia e da Síria, capazes de transportar até dois milhões de barris por dia, ao passo que prosseguem as discussões sobre um outro oleoduto até ao porto de Aqaba, na Jordânia, também no Mar Vermelho.
Segundo o Goldman Sachs, os projectos combinados poderão adicionar 3,8 milhões de barris por dia de capacidade de desvio até ao final de 2027, subindo para 7,3 milhões de barris por dia até ao final de 2028. Concluídos que sejam, até 60% das exportações petrolíferas do Golfo Pérsico anteriores à guerra — cerca de 23 milhões de barris por dia — poderiam evitar por completo o Estreito de Ormuz.
Este acréscimo de investimento surge após meses de perturbações relacionadas com o conflito com o Irão, que tem mantido a pressão sobre o Estreito de Ormuz e elevado o preço do petróleo Brent para acima dos cem dólares por barril.
Os produtores do Golfo consideram, cada vez mais, que a dependência de um ponto de estrangulamento marítimo ao longo da costa iraniana constitui um risco inaceitável a longo prazo.
Apesar da diversificação, as rotas alternativas continuam expostas a riscos geopolíticos. Os rebeldes houthis do Iémen, apoiados pelo Irão, prosseguiram os ataques a embarcações no Mar Vermelho, incluindo recentes atentados contra petroleiros sauditas, o que demonstra que o corredor alternativo de exportação da região é também ele vulnerável.
Algumas das novas rotas acarretam, além disso, custos de transporte mais elevados. O petróleo transportado pelo Mediterrâneo poderá exigir viagens mais longas em torno de África para chegar aos mercados asiáticos, ao passo que o Canal do Suez não comporta os maiores petroleiros do mundo, o que reduz a eficiência do transporte marítimo.
Os próprios oleodutos revelaram-se, aliás, vulneráveis — o oleoduto Leste-Oeste da Arábia Saudita foi já alvo de um ataque com drones levado a cabo pelos houthis.
Ainda assim, o investimento bilionário em infra-estruturas no Golfo Pérsico está prestes a remodelar os fluxos energéticos mundiais. Com o aumento do encaminhamento de petróleo para os terminais do Mar Vermelho, o litoral africano poderá tornar-se um elo ainda mais crucial no comércio internacional, reforçando a importância estratégica do continente na cadeia de abastecimento energético mundial.



