A guerra no Médio Oriente retirou do mercado mundial cerca de 36 milhões de toneladas de gás natural liquefeito (LNG), segundo estimativa avançada pela Shell na conferência energética Gastech, em Bangkok, e citada pela agência Reuters.
O conflito impossibilitou o Qatar e os Emirados Árabes Unidos de escoar a generalidade das suas exportações através do Estreito de Ormuz, via marítima estreita por onde transita cerca de um quinto do comércio mundial de LNG.
O choque na oferta reflectiu-se de imediato nos preços: no mercado à vista da Ásia, o LNG quase triplicou de valor, dos cerca de 10 dólares norte-americanos por MMBtu registados antes do conflito para próximo dos 30 dólares.
Os 36 milhões de toneladas em falta equivalem à totalidade das exportações previstas para todo o continente africano em 2025 — 39,8 milhões de toneladas, segundo dados da União Internacional do Gás. As exportações da Nigéria (14,8 milhões de toneladas) e da Argélia (9,7 milhões de toneladas), os dois maiores produtores do continente, somadas, não atingem o volume interrompido no Médio Oriente.
O único projecto de LNG angolano, a Angola LNG, sediado no Soyo, província do Zaire, tem uma capacidade nominal de 5,2 milhões de toneladas por ano — cerca de 80 carregamentos anuais para os mercados internacionais.
A unidade, um investimento de 12 mil milhões de dólares, é detida pela Sonangol, Chevron, TotalEnergies e Azule Energy (joint-venture entre a Eni e a bp).
A fábrica tem operado abaixo dessa capacidade, por escassez de gás proveniente dos campos petrolíferos maduros que a alimentam — segundo dados oficiais recentes, a cerca de 70% da capacidade, o equivalente a 700 milhões de pés cúbicos diários.
A entrada em pleno funcionamento do Novo Consórcio de Gás e do projecto Sanha Lean Gas Connection, da Chevron, deverá permitir à unidade atingir a sua capacidade máxima até ao final de 2025. Está também em avaliação uma expansão através de um “mini-train” adicional, com capacidade para mais três milhões de toneladas anuais.
No quarto trimestre de 2025, segundo o secretário de Estado para o Petróleo e Gás, José Barroso, as exportações angolanas de gás natural totalizaram 1,7 milhões de toneladas métricas, das quais o LNG representou cerca de 83%, gerando um encaixe bruto próximo dos 830 milhões de dólares, com a Europa como principal destino.
Com os compradores asiáticos e europeus a procurarem fornecimentos alternativos que dispensem a passagem por Ormuz, os exportadores africanos — entre os quais Angola, Nigéria, Argélia, Egipto, Guiné Equatorial e Moçambique — surgem como potenciais fornecedores.
Ao contrário do Qatar e dos Emirados Árabes Unidos, Angola, a Nigéria, a Guiné Equatorial e Moçambique podem fazer chegar o seu LNG aos mercados internacionais sem depender do Estreito de Ormuz. A Argélia, por seu lado, dispõe de ligações por gasoduto à Europa.



