A crescente procura de grãos no mercado doméstico, impulsionada pelas medidas do Executivo angolano, está a expor uma realidade incómoda: Angola quer consumir mais produção nacional, mas ainda não produz o suficiente para responder à procura.
A escassez de arroz e milho no mercado interno não é apenas um problema de abastecimento. É o reflexo de uma cadeia produtiva pouco financiada, pouco organizada e ainda incapaz de transformar o aumento da procura numa oportunidade sustentável para o produtor nacional.
As recentes medidas do Executivo, que procuram aumentar a participação da produção nacional no abastecimento do mercado, são economicamente importantes. Entre elas, destaca-se a obrigatoriedade de os importadores licenciados de milho adquirirem no mercado interno pelo menos 30% do volume total que pretendem importar, à semelhança do que já acontece com o arroz.
A medida pode ser um poderoso estímulo à agricultura. Pode incentivar o aumento das áreas cultivadas, dinamizar o processamento de arroz e milho nacionais, atrair investimentos para a logística e criar novas oportunidades de emprego, sobretudo para a juventude.
Não basta obrigar o comprador a procurar o produto nacional quando o produto simplesmente não existe em quantidade e qualidade suficientes.
O principal gargalo está no financiamento. Para muitos produtores, recorrer à banca continua a ser uma possibilidade quase inacessível, seja pelas exigências de garantias, pelo custo do crédito ou pela ausência de instrumentos adequados ao ciclo agrícola.
É aqui que entram mecanismos como o barter, as compras futuras e os contratos offtaker. Um produtor que tenha assegurada a compra futura da sua colheita passa a ter melhores condições para obter sementes, fertilizantes, equipamentos e outros insumos necessários à produção. O comprador, por sua vez, ganha maior previsibilidade no abastecimento.
Uma bolsa especializada permitiria aproximar produtores, compradores, transformadores, importadores, bancos e outros agentes da cadeia. Mais importante: poderia criar maior transparência sobre preços, volumes, qualidade e procura, permitindo que contratos de compra futura servissem também como instrumentos para facilitar o financiamento da produção.
O debate, portanto, não deve ser apenas sobre restringir ou aumentar importações. O verdadeiro desafio é construir uma ponte entre a procura existente e a capacidade produtiva nacional.
Uma Bolsa de Grãos não resolverá, sozinha, os problemas estruturais da agricultura angolana. Mas poderá criar uma infraestrutura de mercado capaz de reduzir a assimetria de informação, facilitar contratos offtaker, melhorar o acesso ao financiamento e dar maior segurança a quem produz.
A criação de uma Bolsa de Grãos deveria, por isso, deixar de ser uma ideia secundária e entrar na agenda das prioridades económicas nacionais. Se queremos menos dependência das importações, mais produção local e mais empregos, é preciso financiar, organizar e conectar quem produz com quem compra.



