Falar de Turismo de Negócios ou MICE (Meetings, Incentives, Conferences and Exhibitions em linguagem internacional) e falar de um segmento que compreende uma cadeia econômica que mobiliza uma panóplia de sectores de actividades (transportes; hotelaria; telecomunicações; comércio; cultura; serviços, etc) e representa cerca de 60% da actual procura turística em Angola. A grande finalidade e transformar uma viagem profissional numa experiência mais ampla, com mais benefícios econômicos para o país.
Quem se desloca a Angola, fica obrigatoriamente a conhecer o território e torna-se um activo do “bleisure” (combinação de business/negócios e leisure/lazer), avaliando a experiência global, desde a articulação entre prestadores de serviços, a mera forma como e recepcionado e atendido. Por esse motivo, importa assegurar a formação turística multilíngue, elevar padrões de atendimento, melhorar transportes, e apostar a partir de dentro, para que na o se tenha de importar grande parte dos serviços necessários. Os organizadores dos eventos podem, por exemplo, promover programas culturais pré e pós eventos, com vista a aumentar a possibilidade de retorno, investimento e de promoção do país e incentivar ou mesmo patrocinar a participação de jornalistas estrangeiros, influenciadores e opinion-makers para a cobertura e divulgação dos eventos nos seus países e redes sociais.
A posição geográfica de Angola na África Austral, as relações com os países das áreas geográficas limítrofes, com o espaço lusófono e as relações econômicas com os EUA, a China e economias emergentes, permitem integrar o turismo de negócios numa estratégia fundamental da diplomacia econômica.
Em 2025, Angola acolheu a Cimeira de Nego cios EUA-África, conferindo grande visibilidade ao país, e mostrando que tem condições para acolher encontros empresariais de grande dimensão. Para além desse evento, tem-se vindo a realizar outros que conferem destaque ao país como a Cimeira Extraordinária da União Africana, a Cimeira da UE-UA, a Cimeira para o Desenvolvimento de Infraestruturas em África, a Cimeira da Aliança das Nações Unidas, para citar alguns. Alias, a estratégia governamental de dinamizar a marca Visit Angola através de celebridades tem resultado em benefícios inegáveis em termos de destaque internacional, a qual se conjuga com a iniciativa Meet in Angola são apostas estratégicas em matéria de soft power.
Recentemente, com a inaugurada o do Angola Convention Bureau ficou clara a mensagem de que o país é um sério concorrente na competição internacional pela realização de eventos, sobretudo em África. Vivemos, por isso, um momento particularmente interessante para construir e cimentar esta nova narrativa, para construir um calendário internacional de negócios e investimento, articulado com sectores nefrálgicos para a diversificação econômica que deveriam sustentar pelos menos um grande encontro internacional periódico, sob sua responsabilidade.
Porem, estamos conscientes de que existem desafios como a melhoria da mobilidade urbana, a informação multilíngue, a organização de transportes e a disponibilização de serviços digitais e a sinalização turística. Angola precisa de desenvolver empresas nacionais especializadas em organização em grande escala e as universidades e instituições de formação profissional devem acompanhar o esforço de preparação para um acolhimento condigno, capaz de proporcionar a melhor experiência territorial possível.
O Corredor do Lobito, por exemplo, para além de servir a expectável circulação de mercadorias, pode transportar capital, conhecimento, investidores e oportunidades. Porque não criar, com periodicidade anual, um Fórum Internacional do Corredor do Lobito, que reúna governos, investidores, a banca, operadores logísticos e instituições financeiras internacionais? Seria também uma oportunidade para descentralizar os eventos da capital e avançar-se paulatinamente para outras províncias como Huambo e Benguela.
Esta estratégia exige também uma transformação no papel das missões diplomáticas angolanas, que devem funcionar como antena de oportunidades, plataforma de promoção e ponte entre mercados. Para além de identificar associações empresariais, investidores e organizadores de congressos, as Missões Diplomáticas devem promover os eventos econômicos realizados em território nacional nos países em que estão acreditados. Cresce em importância o papel mobilizador de identificação de determinadas empresas e participantes a um determinado evento. Pequenos passos têm sido dados para essa orientação pois este ano os diplomatas receberam formação no domínio da diplomacia econômica, com a participação da AIPEX e essa articulação e uma estratégia eficaz para melhor preparar o diplomata do futuro. Neste campo específico, a articulação através de uma agenda externa própria entre MIREX, Ministério do Comercio e Ministério do Turismo pode ser incentivada.
Efectivamente, o papel de Angola na promoçao da paz, dialogo e estabilidade regional ajudou a construir um importante capital diplomatico e a diplomacia deve agora ajudar a construir o capital economico, atentos ao facto de que poucas actividades possuem uma dimensao de soft power como o turismo e o turismo de negocios. Cada evento produz no imediato capital reputacional, abrindo portas a relacionamentos e investimentos, que se espera em ambiente confiável, organizado e seguro. Porque, no século XXI, os países não competem apenas para serem poderosos mas para serem conhecidos, respeitados e escolhidos.
Dilma Esteves
Mestre em Relações Internacionais Doutoranda em Estudos Estratégicos



