A Administração norte-americana, chefiada por Donald Trump, prepara-se para conceder um empréstimo na ordem dos 100 milhões de dólares à Africell, única operadora de telecomunicações de capital americano presente em solo africano, num gesto que os observadores não hesitam em classificar como mais um lance na disputa que Washington e Pequim travam pelo domínio das infra-estruturas de comunicações no continente.
A notícia, avançada pela agência Reuters e ainda não tornada oficial, dá conta de que o financiamento será assegurado pelo Export-Import Bank of the United States (EXIM Bank), instituição norte-americana vocacionada para o crédito à exportação, destinando-se a permitir à Africell equipar-se com tecnologia de última geração, fornecida por empresas dos Estados Unidos e de países aliados de Washington.
A operadora, importa recordá-lo, entrou em Angola em Abril de 2022, depois de ter vencido, ainda em 2021, o concurso público para a quarta licença universal de telecomunicações no País — sendo a primeira operadora inteiramente estrangeira a obter tal estatuto em solo angolano. Menos de cinco anos volvidos sobre o arranque das suas operações comerciais, a Africell ultrapassou já a marca dos sete milhões de clientes em Angola, número anunciado pela própria empresa por ocasião da recente Feira Internacional de Angola (FILDA). A sua rede, que arrancou em Luanda, foi-se progressivamente estendendo ao Cuanza-Sul, a Benguela, à Huíla, ao Huambo e a outras províncias, num esforço de expansão que a própria operadora reconhece não ter estado isento de atrasos.
Fora de portas, a Africell mantém hoje presença firmada em mais três mercados africanos — a Gâmbia, a Serra Leoa e a República Democrática do Congo —, contando com mais de 16 milhões de assinantes em toda a sua operação continental, segundo dados mais recentes. Na Gâmbia e na Serra Leoa, a empresa assume mesmo a liderança do sector das telecomunicações, com uma quota de mercado próxima dos 60 por cento em cada um dos dois países; já na República Democrática do Congo, a sua fatia de mercado ronda os 20 a 25 por cento nas províncias onde se encontra activa. Refira-se, a propósito, que o Uganda, onde a Africell operou durante sete anos, deixou de figurar entre os seus mercados, após a empresa ter anunciado a sua retirada daquele país da África Oriental, invocando a forte concorrência das gigantes MTN e Airtel.
Fundada em 2001 pelo empresário Ziad Dalloul, a Africell já recorreu, no passado, a tecnologia proveniente de casas como a HP, a Nokia, a Dell e a Oracle, com as quais equipou um centro de dados instalado em território angolano.
O empréstimo agora anunciado não surge isolado. Insere-se, antes, numa estratégia de largo alcance, gizada pela Casa Branca, com vista a reduzir a presença de equipamento chinês nas infra-estruturas de telecomunicações fora de portas — esforço que remonta à chamada iniciativa da “rede limpa”, lançada ainda no primeiro consulado de Trump, e que se mantém viva no actual mandato, tendo mesmo sido reforçada por uma ordem executiva, datada de 2025, que impõe às agências norte-americanas o dever de promover, no estrangeiro, o recurso a tecnologia made in USA — seja em inteligência artificial, seja no armazenamento de dados, nos serviços de nuvem ou nas próprias redes.
Não é segredo para ninguém que os Estados Unidos têm sujeitado a Huawei a pesadas sanções, sob a acusação de que os seus equipamentos poderiam servir para espiar utilizadores — acusação que a empresa chinesa sempre rejeitou, com veemência. Ainda assim, e segundo apurou a firma de estudos de mercado Counterpoint Research, a Huawei continua a dominar o mercado africano das infra-estruturas de quinta geração, ali detendo uma fatia próxima dos 52 por cento.
Wendy Sherman, que foi vice-secretária de Estado durante o consulado de Joe Biden, não hesitou, aquando de uma visita aos escritórios da Africell em Angola, no ano de 2022, em advertir que os países que optam pela Huawei “estão, potencialmente, a abdicar da sua soberania (…), entregando os seus dados a um outro país” — declaração que bem ilustra o pano de fundo político em que se move este novo financiamento.
Por seu turno, Ziad Dalloul, presidente executivo da Africell Holding Limited, manifestou o seu apreço pela parceria estabelecida com o EXIM Bank, afirmando estar satisfeito por, deste modo, se introduzir “infra-estruturas de comunicações mais fiáveis e seguras” nos mercados onde a operadora actua.
Até ao momento, nem a Huawei, nem a embaixada da China, se dignaram responder aos pedidos de esclarecimento formulados pela Reuters.
Fique registado que a Africell já havia beneficiado, no ano de 2018, de um empréstimo de igual montante — 100 milhões de dólares —, então concedido pela Overseas Private Investment Corporation, instituição norte-americana de financiamento ao desenvolvimento, entretanto rebaptizada de International Development Finance Corporation, destinado a alargar a sua infra-estrutura de comunicações.
Guerra das telecomunicações: Washington injecta 100 milhões de dólares na Africell para fazer frente à Huawei
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