Refinaria Dangote entregou mais de 400 mil toneladas de combustível de aviação à Europa em Julho, mantendo a liderança conquistada aos Estados Unidos em Junho
A maior refinaria de petróleo de África manteve, em Julho, a posição de principal fornecedora externa de combustível de aviação à Europa, um título que tinha conquistado apenas um mês antes.
A refinaria Dangote, na Nigéria, entregou mais de 400 mil toneladas ao mercado europeu, cerca de um quinto do total das 2,06 milhões de toneladas importadas pela região no mês, segundo dados compilados pela consultora de commodities Kpler.
O facto de a liderança se ter mantido, e não apenas o recorde inicial de Junho, é o dado que mais chama a atenção dos analistas. Nesse mês, a Dangote tinha ultrapassado pela primeira vez os Estados Unidos, com um volume recorde de 466 mil toneladas, quase o dobro das 232 mil toneladas enviadas em Maio, e acima das cerca de 399 mil toneladas despachadas pelos fornecedores norte-americanos no mesmo período.
Que a refinaria nigeriana tenha conseguido segurar a posição em Julho, mesmo com uma quebra face ao recorde do mês anterior, sugere que a ascensão no mercado europeu pode estar a tornar-se estrutural, e não um pico pontual de exportações.
A resiliência do desempenho ganha ainda mais relevo quando se olha para o que se passou nos bastidores da instalação. Um problema técnico nos equipamentos reduziu significativamente o processamento de crude ao longo de Julho — a Kpler, que inicialmente previa um ritmo de cerca de 650 mil barris por dia, reviu essa estimativa para aproximadamente 450 mil barris diários, um corte que a consultora calcula ter deixado a produção de querosene de aviação cerca de 50 mil barris por dia abaixo do esperado, com quebras semelhantes na gasolina e no gasóleo.
Ainda assim, a refinaria conseguiu embarcar mais de 400 mil toneladas para a Europa e preservar a liderança conquistada em Junho.
A oportunidade de mercado que a Dangote soube aproveitar nasceu de uma disrupção nas rotas de abastecimento que tradicionalmente sustentavam a aviação europeia.
Antes da mais recente crise no Médio Oriente, a Europa importava quase 75% do seu combustível de aviação do Golfo, o equivalente a cerca de 375 mil barris por dia.
As perturbações em torno do Estreito de Ormuz cortaram drasticamente esses fluxos no início do ano, obrigando os compradores europeus a procurar alternativas na Bacia do Atlântico, o que colocou tanto os Estados Unidos como a Nigéria em posição de destaque.
Já em Abril, ambos os países registavam volumes recorde de exportação para a Europa — a Nigéria fornecia então cerca de 66 mil barris por dia, o nível mais alto alguma vez alcançado até essa data.
A escassez atingiu particularmente mercados europeus fortemente dependentes de importação: o Reino Unido, o maior consumidor de combustível de aviação da região, importa cerca de 65% das suas necessidades, segundo dados da Agência Internacional de Energia citados pela Reuters.
As reservas no centro de comercialização de Amesterdão-Roterdão-Antuérpia chegaram a cair para o nível mais baixo desde Março de 2023. Para a Dangote, a conjuntura abriu uma porta de entrada num mercado até então dominado por centros de refinação muito mais antigos — e a sua localização atlântica dá-lhe ainda uma vantagem logística sobre os exportadores do Golfo sempre que as rotas do Médio Oriente são interrompidas.
A trajectória da refinaria até esta posição foi rápida. As operações arrancaram apenas em 2024, com processamento inicial abaixo da capacidade nominal de 650 mil barris diários, à medida que as várias unidades eram progressivamente comissionadas.
Em Fevereiro deste ano, a fábrica atingiu finalmente a capacidade máxima; em Abril, tornou-se a maior exportadora mundial de querosene de aviação, ao redireccionar produção para esse combustível perante a escassez global, segundo a S&P Global Commodity Insights. Dois meses depois, ultrapassava os Estados Unidos como principal fornecedor externo da Europa — posição que agora confirma pela segunda vez consecutiva.
Para a Nigéria, o desenvolvimento representa uma ruptura com a estrutura que definiu a sua indústria petrolífera durante décadas: apesar de figurar entre os maiores produtores de crude do continente, o país exportava historicamente petróleo bruto e importava em grande escala os produtos refinados que consumia.
A refinaria Dangote começa a inverter esse padrão, transformando crude em gasolina, diesel e querosene de aviação tanto para consumo interno como para os mercados de África, Europa e outras regiões.
O director executivo da refinaria, David Bird, afirmou em Junho que a procura limitada em África deixa a instalação com um excedente substancial de combustível de aviação disponível para os mercados internacionais, sustentando que a refinaria está em condições de fornecer combustível de forma competitiva à escala global — e que as interrupções recentes no fornecimento criaram uma janela de oportunidade para refinarias situadas fora do Golfo.



