Empresa gestora dos aeroportos angolanos garante que “operação vai bem”, mas números escondem uma liquidez fraca, dependência de cobranças antigas e um fluxo de caixa que não aguenta os investimentos.
A Sociedade Gestora de Aeroportos (SGA) fechou o exercício de 2025 no vermelho, com um prejuízo líquido de Kz 17.848 milhões, uma reviravolta brutal face ao lucro de Kz 12.386 milhões alcançado em 2024.
Na prática, a empresa perdeu Kz 30.234 milhões de um ano para o outro, segundo dados constantes do relatório de contas disponibilizado pelo Instituto de Gestão de Activos e Participações do Estado (IGAP).
O impacto imediato sente-se onde mais dói: no capital próprio da empresa, que encolheu de Kz 89.339 milhões em 2024 para Kz 70.016 milhões em 2025, uma contracção de 21,6% atribuída directamente ao prejuízo do exercício.
A gestão da SGA insiste que o desempenho operacional continua positivo e que o prejuízo é explicado sobretudo por factores não operacionais.
Os números até dão razão à empresa nesse ponto: o resultado operacional somou Kz 22.702 milhões, uma margem operacional de 29,4%, com um EBITDA estimado em Kz 38.215 milhões.
O problema está fora da operação diária. Os resultados financeiros negativos, de Kz 31.339 milhões, foram o principal responsável pelo tombo nas contas — e desses, Kz 31.560 milhões estão associados ao desconto financeiro da dívida da TAAG.
A isto somam-se Kz 9.210 milhões em resultados não operacionais negativos, empurrados sobretudo pelo reforço de provisões para cobranças duvidosas, no valor de Kz 27.588 milhões.
Por trás do discurso institucional, o relatório levanta um sinal de alerta sério sobre a real capacidade da SGA de pagar as suas contas a curto prazo.
O rácio de liquidez geral está em 1,58 vezes — formalmente aceitável, à primeira vista. Mas o próprio relatório desmonta essa aparente tranquilidade: 79,2% do activo corrente, equivalente a Kz 85.165 mil milhões, corresponde a contas a receber já antigas e sujeitas a provisões significativas, o que levanta dúvidas sobre a sua real qualidade e capacidade de conversão em dinheiro.
Quando se retiram essas contas a receber da equação, a liquidez imediata da SGA cai para apenas 0,33 vezes — um número que expõe uma forte dependência da capacidade de cobrança da empresa para honrar compromissos de curto prazo.
Os fluxos de caixa operacionais líquidos até cresceram, atingindo Kz 3.596 mil milhões. Mas o valor ficou muito aquém do necessário para financiar o investimento em activos fixos, de Kz 8.441 mil milhões, resultando num free cash flow negativo de cerca de Kz 4.845 mil milhões.
A isso junta-se uma redução das disponibilidades de caixa da empresa, que passaram de Kz 24.487 mil milhões em 2024 para Kz 20.369 mil milhões em 2025 — uma queda de 16,8%.



