O governo de Donald Trump anunciou um novo programa de investimento estratégico entre os Estados Unidos e a África, dotado de 500 milhões de dólares, com o objectivo de reforçar as cadeias de fornecimento de minerais críticos e alargar as oportunidades de negócio norte-americanas na África Subsariana.
Angola surge como um dos países com maior potencial para beneficiar desta iniciativa, graças à sua posição estratégica como porta de saída atlântica para os minerais da região central e austral do continente.
Gerida pelo Gabinete de Assuntos Africanos do Departamento de Estado dos EUA, a iniciativa vai financiar projectos em toda a África Subsariana através de até dez acordos de cooperação ou subsídios, cada um entre 5 e 50 milhões de dólares.
O enfoque está em reforçar cadeias de abastecimento mais resistentes e diversificadas, e em promover a diplomacia comercial como instrumento central da política externa americana para o continente.
O secretário de Estado Marco Rubio resumiu a nova abordagem de Washington com a ideia de que o comércio passa a ser prioritário face à ajuda externa, as oportunidades face à dependência, e o investimento face à assistência.
Esta lógica marca uma ruptura clara com décadas de política americana para a África, assente sobretudo na ajuda ao desenvolvimento. Em vez de financiar directamente infra-estruturas, o programa pretende criar condições que atraiam capital privado de empresas americanas e de países alinhados com os EUA, apostando numa regulação transparente, em mercados competitivos e em projectos comercialmente viáveis, capazes de gerar retorno económico sustentado.
É aqui que Angola ganha particular destaque. Entre os indicadores que Washington vai utilizar para medir o sucesso do programa está precisamente o aumento das exportações de minerais através do Corredor de Lobito — a ligação ferroviária e portuária que liga os cinturões mineiros do cobre da República Democrática do Congo e da Zâmbia à costa atlântica angolana.
Esta menção explícita coloca Angola numa posição privilegiada dentro da nova arquitectura de investimento dos EUA em África: o país não é apenas um destino de investimento, mas sim a infra-estrutura logística que torna possível escoar para os mercados ocidentais os minerais críticos extraídos no interior do continente.
À medida que Washington procura reduzir a dependência de cadeias de fornecimento dominadas pela China, o porto de Lobito e o corredor ferroviário associado tornam-se um activo geoestratégico de primeira grandeza — sendo Angola o seu principal beneficiário directo.
Outros indicadores de êxito definidos no documento incluem o número de empresas americanas e aliadas a entrar nos sectores mineiros africanos, o valor dos investimentos e contratos de fornecimento assinados, o reforço dos quadros regulamentares, e o aumento das receitas fiscais geradas por projectos mineiros transparentes — todos eles com potencial impacto directo na economia angolana, à medida que o país consolida o seu papel de plataforma logística regional.
A iniciativa assenta em dois eixos principais. O primeiro centra-se nos minerais críticos. O segundo, designado Aceleração da Diplomacia Comercial, visa apoiar reformas que melhorem as condições de investimento em sectores como a energia, as telecomunicações, as tecnologias emergentes e a inteligência artificial — áreas onde Angola tem vindo a procurar diversificar a sua economia para além do petróleo.
A África detém cerca de 30% das reservas mundiais conhecidas de minerais críticos. A República Democrática do Congo fornece aproximadamente 70% do cobalto mundial, a África do Sul domina a produção de metais do grupo da platina, a Zâmbia figura entre os maiores produtores mundiais de cobre, e o Zimbabué tem vindo a emergir como um dos produtores de lítio de crescimento mais rápido do continente.
Angola faz fronteira ou está regionalmente próxima de três destes grandes produtores — RDC, Zâmbia e Zimbabwé —, reforçando a sua posição como corredor natural de escoamento para os mercados internacionais, precisamente a função que o programa dos EUA procura valorizar e financiar.
Ao combinar incentivos ao investimento privado com objectivos claros de cadeia de abastecimento, a nova estratégia norte-americana posiciona a África Subsariana — e Angola em particular, através do Corredor de Lobito — como parceiro central nos esforços de Washington para diversificar e tornar mais resistente o fornecimento mundial de minerais essenciais à defesa, aos semicondutores, aos veículos eléctricos, às energias renováveis e à manufactura avançada.



