A batalha pelo acesso à internet em África ganhou um novo contendor. A Amazon pediu licença às autoridades do Quénia para construir a sua primeira estação terrestre de satélite no continente africano, colocando Jeff Bezos em rota de colisão directa com Elon Musk no mercado de banda larga via satélite.
A Amazon Kuiper Kenya Limited — subsidiária local criada para o efeito — submeteu o pedido junto da Autoridade de Comunicações do Quénia, ao abrigo da categoria de operador de gateway internacional. A empresa solicita uma licença de 15 anos para o seu serviço de internet via satélite, agora rebaptizado de Amazon Leo.
A estação terrestre é o ponto onde os sinais de satélite são convertidos em tráfego de internet e distribuídos através de redes de fibra aos utilizadores. Quanto mais próxima estiver dos utilizadores, mais rápida é a ligação. Quando a Starlink abriu a sua própria estação em Nairobi, a latência caiu de 296 milissegundos para 39 milissegundos — uma diferença que se traduziu directamente em melhores videochamadas e navegação mais rápida. A Amazon pretende agora replicar essa vantagem.
A Amazon posiciona o seu serviço em torno de velocidades de download que podem atingir os 400 Mbps nos terminais domésticos e até 1.280 Mbps nos equipamentos empresariais. A Starlink oferece cerca de 150 Mbps nos planos standard e até 400 Mbps nos planos superiores.
A estratégia da Amazon passa também pelas parcerias com as operadoras locais. Um acordo firmado com a Vodafone ligará a rede de satélites a estações base 4G e 5G em zonas remotas, com os primeiros desdobramentos previstos para 2026. A Vodafone é empresa-mãe da Safaricom, a maior operadora de telecomunicações do Quénia. A Starlink, que entrou no mercado queniano em 2023, já estabeleceu acordos com a Airtel e construiu uma base sólida de clientes no país.
Angola acompanha esta corrida de perto — e ainda aguarda a sua vez. A Starlink tentou entrar no mercado angolano ainda em 2023, mas foi forçada a adiar os planos por dificuldades em obter as concessões de operação junto do Instituto Angolano das Comunicações. Entretanto, a Eutelsat OneWeb garantiu uma licença de 15 anos em Angola em julho de 2025, abrindo caminho para a expansão de internet via satélite no país. A entrada da Starlink em Angola está agora prevista para 2026. Com a Amazon Leo a expandir-se pelo continente, Angola poderá em breve ter à sua disposição várias opções de conectividade via satélite — um salto que pode transformar o acesso à internet em zonas rurais e periféricas do país.
A presença da Amazon no continente africano não se limita ao Quénia. Em parceria com a Vodacom, subsidiária sul-africana da Vodafone, a empresa prepara-se para expandir a cobertura de redes móveis 4G e 5G em zonas remotas de toda a África, usando a sua rede de satélites como suporte.
A ambição da Amazon é global. O Amazon Leo conta actualmente com mais de 150 satélites em órbita — contra mais de 8.000 da Starlink, que acumula mais de 8 milhões de subscritores em todo o mundo. O plano passa por lançar mais de 3.200 satélites até 2028. Além de África, o serviço está em expansão na América Latina — com acordos confirmados no Brasil, Argentina, Chile, Colômbia, Equador e Peru — bem como na Austrália e no Reino Unido.
A rivalidade entre os dois homens mais ricos do mundo chega assim a África com consequências potencialmente transformadoras. Mais concorrência pode significar melhores preços, maior cobertura e acesso à internet para milhões de pessoas em regiões onde a conectividade continua a ser um luxo — e não um direito.



