Eduardo Camavinga nasceu em Cabinda, Angola. Hoje joga no Real Madrid, sendo o primeiro jogador nascido em Angola a representar o clube.  Conquistou a UEFA Champions League. Somou títulos na La Liga. E, ainda assim, não se satisfez com isso.
Quando o seleccionador Didier Deschamps anunciou a lista dos 26 convocados da França para o Mundial 2026 , o nome de Camavinga não constava da relação. A resposta do jogador foi digna e sem dramatismo: “Não era a notícia que eu esperava, mas isto é futebol. Vou continuar a trabalhar, continuar a lutar e voltar mais forte.” 

E foi exactamente o que fez. Enquanto os seus companheiros de selecção se preparam para o torneio, Camavinga embarcou numa experiência de natureza diferente — uma semana na Harvard Business School, em Cambridge, Massachusetts. A sua mensagem nas redes sociais foi breve, mas reveladora: “Alguns dias de aprendizado, escuta e crescimento. Grato pela experiência na Harvard Business School.”
Por detrás desta experiência está uma das figuras mais influentes do ensino superior ligado ao desporto e ao entretenimento: a professora Anita Elberse, titular da Cátedra Lincoln Filene de Administração de Empresas na Harvard Business School. 

O seu programa The Business of Entertainment, Media, and Sports — conhecido pelo acrónimo #BEMS — é um curso intensivo de quatro dias, com um custo de 12.000 dólares, disputado por apenas 80 lugares. 
A procura é tal que figuras de primeiro plano do desporto, da música e do cinema têm feito fila para participar. Entre os alumni mais conhecidos contam-se o actor Channing Tatum, o rapper LL Cool J, a supermodelo Karlie Kloss e o ex-basquetebolista Dwyane Wade.  Mais recentemente, a campeã de ski Mikaela Shiffrin e o internacional de futebol Juan Mata também frequentaram o programa. 
O que torna o curso verdadeiramente singular é a metodologia que Elberse desenvolveu ao longo de duas décadas: estudos de caso aprofundados sobre negócios geridos por figuras de celebridade, apresentados apenas três ou quatro vezes por ano — e anunciados nas redes sociais com a antecipação de um lançamento musical ou de uma colecção de moda.  Organizações e personalidades chegam mesmo a contactar a professora para propor que as suas histórias sejam estudadas.
Entre os casos já desenvolvidos por Elberse encontram-se nomes como Beyoncé, David Beckham, LeBron James, Lady Gaga, Roger Federer, Mohamed Salah, Giannis Antetokounmpo, BTS, Pharrell Williams e o criador de conteúdos MrBeast, bem como organizações como o Real Madrid, o FC Barcelona, o Paris Saint-Germain, a Nike e a NFL. 
Cada caso é construído com rigor académico e relevância prática. O estudo sobre Beyoncé, desenvolvido com a colaboração directa da empresa da artista, a Parkwood Entertainment, analisa a estratégia por detrás do lançamento secreto do seu álbum homónimo em 2013 — uma decisão que contrariou todas as convenções da indústria musical e reescreveu as regras do lançamento de produtos de entretenimento.  O caso sobre David Beckham debruça-se sobre a gestão simultânea de múltiplas marcas, incluindo a contratação de Lionel Messi para o Inter Miami CF.  Já o estudo dedicado a Toto Wolff, director da equipa Mercedes na Fórmula 1, examina os princípios de liderança por detrás de uma das mais impressionantes sequências de vitórias na história do desporto motorizado.  Para além do #BEMS, Elberse dirige ainda um programa de mentoria semestral denominado Crossover Into Business, concebido especificamente para atletas profissionais em transição para o mundo empresarial. 
A publicação de Camavinga não passou despercebida aos seus companheiros no Real Madrid. Vinicius Jr. foi o primeiro a reagir — com uma sequência de palmas nos comentários que dispensou qualquer palavra adicional. Rodrygo juntou-se aos elogios. Estes três jogadores formam a espinha dorsal do projecto de futuro do Real Madrid, tendo crescido juntos no clube até ao mais alto nível competitivo. 
De Angola chegou também a voz de Bruno Fernando, basquetebolista natural de Luanda e o primeiro angolano a ser seleccionado no draft da NBA.  A sua mensagem de orgulho ao compatriota encerra um simbolismo que ultrapassa o desporto: dois angolanos no topo do mundo, a representar o seu país com distinção.
A ida de Camavinga a Harvard não é um gesto isolado. Insere-se numa tendência crescente entre os atletas de elite que reconhecem que a carreira desportiva tem uma duração limitada — e que o que se constrói paralelamente é o que perdura. Um atleta que investe na sua formação intelectual não é apenas um futebolista de excelência. É um homem que pensa a longo prazo.
Nasceu em Cabinda. Joga no maior clube do mundo. Estuda na mais prestigiada escola de negócios do planeta. A história de Eduardo Camavinga está longe de ter chegado ao seu melhor capítulo.



