A política americana para África atravessa o momento de maior retracção em décadas. A administração Trump acumulou, em menos de dois anos, um conjunto de decisões que esvaziam a presença diplomática dos Estados Unidos no continente: remoção em massa de embaixadores, planos de encerramento de postos consulares e agora um corte drástico na capacidade de processamento de vistos. O retrato é de um abandono sistemático, ainda que não declarado.
Mais de 75% dos países africanos não têm actualmente um embaixador americano em funções  — uma proporção sem paralelo em qualquer outra região do mundo. O vazio resulta de uma purga que começou em Dezembro de 2025, quando a administração Trump ordenou o regresso a Washington de dezenas de diplomatas de carreira.
África foi o continente mais afectado, com a remoção de embaixadores em 13 países: Burundi, Camarões, Cabo Verde, Gabão, Costa do Marfim, Madagáscar, Maurícias, Níger, Nigéria, Ruanda, Senegal, Somália e Uganda. 
Embora os embaixadores de carreira não tenham sido formalmente demitidos, foi-lhes imposto um prazo limitado para encontrar nova função — caso contrário, teriam de se aposentar ao abrigo das normas do serviço exterior.  O Departamento de Estado defendeu as mudanças como um processo normal, argumentando que o presidente tem o direito de garantir que os seus representantes no exterior promovem a agenda “America First”.
A Associação Americana do Serviço Exterior (AFSA) reagiu com dureza, alertando que remover diplomatas experientes sem causa ou justificativa envia uma mensagem perigosa aos aliados dos EUA.
A par do esvaziamento das embaixadas, chegou agora o corte nos vistos. O Departamento de Estado planeia reduzir de cerca de 50 para 20 o número de embaixadas e consulados em África com capacidade para processar vistos , obrigando os candidatos dos restantes países a deslocar-se ao estrangeiro para as suas entrevistas consulares — com custos e tempos de espera muito superiores.
Os críticos apontam uma contradição central: entre os países sem embaixador americano encontra-se a República Democrática do Congo, onde as autoridades de saúde pública têm alertado para um surto de Ebola em rápida propagação.  Ao mesmo tempo, Washington continua a exigir a cooperação africana na aplicação das normas migratórias americanas, incluindo a aceitação de deportados. O sinal é contraditório e, para muitos governos africanos, difícil de ignorar.
Senadores democratas do Comité de Relações Exteriores do Senado alertaram que a ausência de liderança diplomática em mais de 100 embaixadas a nível global pode ter impactos estratégicos relevantes, abrindo espaço para a China e a Rússia aprofundarem a sua influência junto de líderes com quem Washington terá efectivamente cortado o contacto regular. 
Em África, esse risco é particularmente agudo — e a combinação de embaixadas sem chefia, consulados a fechar e vistos cada vez mais inacessíveis sugere que a janela para reverter a tendência se está a fechar rapidamente.



