Quase um ano de apagões, promessas não cumpridas e negociações sem fim. A crise energética que paralisa São Tomé e Príncipe tem um denominador comum: a dívida crónica à Sonangol, a petrolífera estatal angolana que controla o fornecimento de combustível ao arquipélago.
O primeiro-ministro Américo Ramos voltou a recusar indicar uma data para o fim do problema. O sindicato dos trabalhadores da electricidade promete 90% de melhoria em duas semanas. A população continua às escuras.
No centro do problema está a relação financeira entre a Empresa de Água e Electricidade (EMAE) e a ENCO — distribuidora local de combustíveis detida maioritariamente pela Sonangol. A EMAE acumula uma dívida histórica à ENCO que, segundo o Banco Mundial, equivalia a 23% do PIB são-tomense em 2024.
Sem receber, a ENCO não paga à Sonangol. Sem garantias de pagamento, a Sonangol reduz ou suspende o fornecimento de gasóleo a crédito. Sem gasóleo, os geradores param — e o país fica sem luz. É um ciclo que se repete há décadas, mas que se agudizou: desde 2019 que a Sonangol deixou de fornecer combustíveis a crédito ao arquipélago, obrigando São Tomé a pagamentos que o Estado e a EMAE frequentemente não conseguem assegurar.
“Prefiro não falar em timing, mas eu tenho a certeza que a equipa [da EMAE] está envolvida no trabalho”, declarou Américo Ramos no final de uma reunião com os trabalhadores da empresa, que classificou como “muito produtiva”. O chefe do Governo reiterou que a crise “é um problema cíclico” e apelou ao envolvimento de todos: “É preciso que a EMAE se envolva na reparação das máquinas, no envolvimento de trabalhadores, na boa gestão de recursos.”
Não é a primeira vez que Américo Ramos falha um prazo. No mês passado, após uma reunião convocada pelo Presidente da República, Carlos Vila Nova, havia garantido que a crise estaria resolvida nas primeiras semanas de maio. Não cumpriu e não explicou porquê.
Quem se mostrou mais assertivo foi o presidente do Sindicato dos Trabalhadores da EMAE, Adélcio Costa. “Temos a certeza que depois dessa reunião a energia melhorará substancialmente […] 90% da crise será solucionada”, afirmou, reconhecendo que vários geradores importados continuam com avarias constantes.
O líder sindical foi directo quanto à urgência: “Não estamos preocupados com melhorias fictícias. Queremos que as coisas demorem mais porque não podemos continuar a oferecer à população a escuridão. Estamos em pleno século 21.”
A dependência de São Tomé e Príncipe da Sonangol vai muito além do combustível imediato. As negociações entre os dois governos para reestruturar a dívida e garantir o fornecimento regular têm sido constantes, mas os resultados ficam aquém das promessas. O Banco Mundial alerta que esta dependência é um dos principais obstáculos ao crescimento económico do arquipélago.



