Dizem os mais velhos de Katchiungo que a terra do Huambo não cria homens pequenos. Cria homens como o planalto — largos, firmes, capazes de suportar o peso da chuva e a secura do cacimbo sem perder a cor.
Elias Piedoso Chimuco nasceu ali, naquele chão vermelho e fértil, a 4 de dezembro de 1969, quando Angola ainda carregava nos ombros o peso colonial e já sentia nas entranhas o rumor da liberdade que viria.
Cresceu a ver o país mudar de pele. Viu a independência chegar como chuva de bênção e a guerra instalar-se como visita que não sabe a hora de partir. E foi precisamente nesse Angola de incerteza que o jovem Elias aprendeu a lição mais valiosa que a terra pode ensinar: quem não planta no tempo seco, não colhe na estação das chuvas.
Em 1989, com os pés ainda jovens mas a cabeça já amadurecida pela necessidade, entrou no mundo do comércio pela porta da Vinevala Comercial & Filhos. Não era a porta principal — era a porta dos fundos, aquela que só os determinados encontram.
Dois anos depois, em 1991, fundou no Lobito a sua própria empresa. Baptizou-a com o seu nome, como quem assina uma promessa: Chimuco Comercial e Filhos, Lda. Vendia bens alimentares, aquela coisa humilde e essencial que alimenta tanto o corpo como os sonhos.
O nome da empresa foi crescendo com o homem. Em 1993 tornou-se Chimuco Comercial Industrial, Lda. — e desse nome nasceu o acrónimo que hoje corre de Menongue a Luanda, de Benguela ao Namibe: Chicoil.
O Grupo Chicoil S.A. expandiu-se como a sombra de uma mulemba velha — devagar, devagar, até cobrir hotelaria, construção civil, segurança, agro-indústria, imobiliário e transportes. Era já não um homem com uma empresa. Era um sul com um arquitecto.
Mas Elias Chimuco é daqueles angolanos que não separam o bolso do coração. Em junho de 2014 fundou o Banco Yetu — yetu, que em umbundu quer dizer “nosso”. O nome não foi escolhido por acaso. Foi uma declaração de intenção: que o dinheiro que circula no sul tenha um endereço próprio, que a poupança do camponês do Cuando e do Cubango não precise de viajar até Luanda para ser respeitada.
O banco abriu as portas em setembro de 2015, e com ele abriu-se também uma janela nova na arquitectura financeira angolana.
A política chamou-o como chama a todos os que constroem — porque quem constrói quer também decidir. Em 2012 foi eleito deputado à Assembleia Nacional pelo MPLA, representando o Cuando Cubango — hoje repartido nas províncias do Cuando e do Cubango —, essa região imensa e quase secreta que Angola guarda como guarda os seus rios: com cuidado e silêncio.
A Namíbia reconheceu nele o que os angolanos já sabiam. Credenciado por duas vezes como cônsul honorário da República da Namíbia em Angola, Chimuco passou a ser a ponte humana entre dois países que partilham fronteira, história e o mesmo vento quente do sul.
Benguela, Huíla e as terras do Cuando e do Cubango — três províncias tornadas quatro, uma responsabilidade, um homem.
E porque o homem do sul não esquece de onde veio, criou em 2012 a Fundação Piedoso, com sede em Menongue, capital do Cuando. A fundação trabalha silenciosamente, como trabalham os que sabem que a caridade que faz barulho é espectáculo, não serviço. Educação, saúde, formação profissional — o essencial daquilo que faz uma criança tornar-se cidadão.
Actua no Cunene, no Huambo, no Cuando, no Cubango, no Cuanza Norte, no Bié, no Bengo. Actua onde é preciso.
Comprou a Universidade Independente de Angola, que já formou mais de oito mil estudantes. Abriu o Instituto Superior Politécnico Privado de Menongue.
Firmou parcerias com universidades em Cabo Verde e no Brasil. Porque Elias Chimuco percebeu aquilo que os grandes percebem mais cedo: que uma nação só se ergue quando os seus filhos sabem ler o mundo.
Dizem que o mato do Cuando e do Cubango é difícil de atravessar. As estradas são longas, a terra é seca, o horizonte engana. Mas quem nasce no planalto do Huambo aprende desde cedo que o horizonte não é uma barreira — é um convite. Elias Piedoso Chimuco aceitou o convite. E foi caminhando.


